Confiança setorial em abril divide Brasil entre demanda forte e oferta fraca
As sondagens de confiança setorial de abril/2026 revelam um Brasil dividido.
As sondagens de confiança setorial de abril/2026 revelam um Brasil dividido. Dos 6 componentes analisados pelo Elucidados, 3 sinalizaram predominância de avaliação positiva (comércio, expectativas comerciais e consumidor), enquanto 3 indicaram predominância de avaliação negativa (indústria geral, expectativas industriais e construção). Nenhum setor ficou na zona neutra. O padrão sugere economia com demanda aquecida, mas gargalos na produção.
Estas pesquisas mensais ouvem empresários da indústria (CNI), comércio (CNC) e construção (FGV), além de consumidores (Fecomercio-SP). Cada entidade transforma respostas qualitativas em índice quantitativo. A CNI usa escala 0 a 100 com 50 como ponto neutro; as demais usam escala com 100 como neutro. Quando o índice fica acima da norma, predomina avaliação positiva; abaixo, negativa. Esses indicadores costumam anteceder a atividade real com defasagem de um a três meses, o que os torna ferramentas úteis para antecipar movimentos no PIB setorial, nas vendas do varejo e na produção industrial.
A indústria está no pior patamar em cinco anos. O ICEI geral fechou em 45,20 pontos em abril/2026, abaixo dos 50 que marcam neutralidade. As expectativas industriais ficaram ainda piores, em 47,60 pontos. A variação de 12 meses mostra queda de 2,80 pontos percentuais no índice geral e de 3,10 pontos percentuais nas expectativas. Esse nível de desânimo entre industriais tende a preceder contração na produção física (PIM-PF) nos próximos meses. O percentil de 0,02 em janela de 5 anos, tanto para o índice geral quanto para as expectativas, coloca a indústria entre os 2% piores momentos da série histórica recente. Não é apenas pessimismo, é pessimismo extremo.
O comércio, por contraste, mantém predominância clara de otimismo. O ICEC subiu para 102,11 pontos, acima dos 100 que marcam neutralidade, com variação positiva de 2,91 pontos percentuais em 12 meses. As expectativas comerciais estão ainda mais altas, em 128,25 pontos, com variação de 0,69 ponto percentual no mesmo período. Esse otimismo aponta para atividade varejista resiliente e tende a se refletir em movimento positivo das vendas (PMC) com defasagem. O percentil de 0,13 para o ICEC e 0,12 para as expectativas comerciais indica que o comércio está na faixa baixa da série de 5 anos, mas ainda assim acima da neutralidade. O setor não está eufórico, está estável com viés positivo.
A construção sinaliza fraqueza moderada. O índice FGV ficou em 92,60 pontos, abaixo dos 100, com queda de 1,20 ponto percentual em 12 meses. O percentil de 0,15 mostra que não é o nível mais baixo da série de 5 anos, mas está claramente abaixo da zona de conforto. A construção civil é sensível a juros altos e custos de insumos, e o índice reflete essa pressão. O consumidor, por sua vez, apresenta o sinal mais forte de otimismo. O índice Fecomercio-SP atingiu 125,87 pontos em março/2026, com variação impressionante de 10,66 pontos percentuais em 12 meses. O percentil de 0,72 situa o consumidor entre os melhores momentos da série histórica de 5 anos. É o único componente que está claramente acima da média histórica recente, sugerindo que a demanda das famílias está aquecida.
A divergência entre setores é notável e carrega implicações práticas. Consumidor em alta e indústria em baixa simultâneas sugerem padrão típico de economia com demanda aquecida mas produção constrangida. Pode ser gargalo de oferta doméstica, pressão de importações ou ambos. O comércio otimista acompanha o consumidor, o que faz sentido: varejistas veem consumidor comprando e melhoram suas expectativas. A construção fraca pode refletir tanto demanda reduzida quanto custos elevados de insumos, especialmente em ambiente de juro real elevado.
A média das variações de 12 meses ficou em 1,19 ponto percentual positivo, sugerindo estabilidade geral na confiança. Mas essa média mascara a divergência crescente entre setores. Nos próximos meses, a atividade real deve refletir essa divisão: varejo e consumo tendem a acompanhar o otimismo, enquanto produção industrial e investimento em construção podem sofrer pressão. O dado de consumidor é de março/2026, um mês atrás dos demais, então a leitura de tendência carrega essa defasagem. A próxima rodada de sondagens, prevista para maio/2026, dirá se a divergência se amplia ou se algum setor começa a convergir.