Reservatórios do Sul operam 37,5 pontos abaixo do Norte em junho
Os níveis de energia armazenada no Sistema Interligado Nacional apresentam disparidade acentuada entre regiões ao final de 01/06/2026.
Os níveis de energia armazenada no Sistema Interligado Nacional apresentam disparidade acentuada entre regiões ao final de 01/06/2026. O subsistema Norte opera com 96,51% de sua capacidade máxima, enquanto o Nordeste registra 93,40%. Em patamares substancialmente inferiores, o Sudeste/Centro-Oeste está em 66,08%, e o Sul registra 58,99%. O spread entre o subsistema mais cheio e o mais crítico atinge 37,5 pontos percentuais.
A heterogeneidade reflete a diversidade das bacias hidrográficas brasileiras e os diferentes regimes de chuva que alimentam cada região. O subsistema Sudeste/Centro-Oeste concentra cerca de 70% da capacidade total de armazenamento do país, o que torna seu nível de 66,08% particularmente relevante para a operação do sistema. Quando esse subsistema opera abaixo de 70%, o Operador Nacional do Sistema tende a acionar termelétricas para garantir o suprimento, elevando o custo marginal de operação.
O regime de chuvas dos últimos 30 dias, encerrados em 01/06/2026, mostra volumes distintos em paralelo à situação dos reservatórios. No Norte, a precipitação acumulada foi de 389 milímetros, enquanto o Nordeste registrou 220 milímetros. O Sul acumulou 157 milímetros no mesmo período, volume insuficiente para recompor suas bacias após o verão de baixa afluência. Já o Sudeste/Centro-Oeste, subsistema dominante para a operação do sistema, apresentou apenas 32 milímetros de chuva acumulada, o menor volume entre todas as regiões.
A precipitação no Sudeste/Centro-Oeste é especialmente crítica porque alimenta as principais hidrelétricas do país, incluindo as usinas do complexo do Rio Paraná e do São Francisco. Quando a chuva fica abaixo da média histórica para o período, como ocorreu nos últimos 30 dias, a recomposição dos reservatórios depende de afluências futuras ou de redução da demanda. Nenhuma das duas é garantida em junho, mês que marca o início do período seco na região.
O nível dos reservatórios é um indicador fundamental para a gestão da matriz elétrica brasileira. Quando os reservatórios operam em patamares baixos, o sistema tende a acionar termelétricas para suprir a demanda, o que eleva o custo da operação. Esse movimento de despacho térmico pode, em última instância, pressionar a bandeira tarifária e o IPCA energia, afetando o custo final para o consumidor residencial e industrial.
A bandeira tarifária é o mecanismo que repassa ao consumidor o custo adicional de geração térmica. Quando os reservatórios estão cheios, a bandeira tende a ficar verde, sem custo extra. Quando o sistema precisa acionar térmicas de forma intensiva, a bandeira pode subir para amarela ou vermelha, adicionando entre R$ 1,88 e R$ 9,49 por 100 kWh consumidos, dependendo do patamar. O nível atual do Sudeste/Centro-Oeste, em 66,08%, ainda não aciona bandeira vermelha de forma automática, mas reduz a margem de segurança do sistema para os próximos meses.
O Sul, em 58,99%, opera no limite inferior da faixa de conforto operacional. Historicamente, níveis abaixo de 60% nesse subsistema exigem atenção redobrada do ONS, especialmente se a demanda subir com a chegada do inverno. A região depende fortemente de hidrelétricas de menor porte e de interligações com o Sudeste para equilibrar sua carga. Quando ambos os subsistemas operam em níveis baixos simultaneamente, como ocorre agora, a margem de manobra do sistema se estreita.
A configuração atual dos reservatórios não indica risco iminente de racionamento, mas sinaliza que o sistema opera com menor folga do que no mesmo período de anos anteriores. A evolução dos níveis nas próximas semanas dependerá do regime de chuvas de junho e julho, meses tipicamente secos no Sudeste e no Sul, e da trajetória da demanda, que tende a subir com o frio.