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Reservatórios do Brasil mostram disparidade extrema entre regiões

Norte e Nordeste transbordam enquanto Sul opera crítico; Sudeste intermediário.

Os quatro subsistemas do Sistema Interligado Nacional apresentam em 13 de junho de 2026 um quadro de forte heterogeneidade. O Nordeste armazena 91,62% da sua capacidade máxima, o Norte 96,99%, o Sudeste/Centro-Oeste 65,54% e o Sul 57,30%. O spread entre o subsistema mais cheio e o mais crítico atinge 39,70 pontos percentuais, uma disparidade que reflete bacias hidrográficas distintas e regimes de chuva diferentes em cada região.

Gráfico
Energia armazenada do Nordeste (% do máximo), últimos 365 dias
96,5379,0361,5344,02 91,62 08/11 19/01 01/04 13/06
Fonte. ONS

O Norte e o Nordeste operam em níveis confortáveis de armazenamento, enquanto o Sul enfrenta situação mais restrita. O Sudeste/Centro-Oeste, que concentra aproximadamente 70% da capacidade total do SIN, está em zona intermediária. Esse subsistema dominante não está em nível crítico que force acionamento agressivo de geração térmica, mas também não dispõe de margem confortável para absorver períodos prolongados de chuva abaixo da média. A diferença de quase 40 pontos percentuais entre extremos é uma das maiores registradas no sistema nos últimos anos, sinalizando que o país opera com duas realidades hidrológicas simultâneas.

Gráfico
Energia armazenada do Sul (% do máximo), últimos 365 dias
94,5272,7050,8829,06 57,30 08/11 19/01 01/04 13/06
Fonte. ONS

A energia armazenada, medida em percentual da capacidade máxima dos reservatórios, funciona como termômetro da segurança energética. Quando os níveis estão altos, o país pode gerar eletricidade predominantemente com hidrelétricas, que têm custo operacional baixo. Quando os níveis caem, o Operador Nacional do Sistema aciona usinas térmicas movidas a gás natural, carvão ou óleo diesel, que custam mais e encarecem a conta de luz via bandeira tarifária. O nível de 65,54% no Sudeste/Centro-Oeste indica que o sistema ainda opera com alguma flexibilidade, mas sem a folga que permitiria atravessar meses de seca severa sem acionar térmicas.

O regime de chuva dos últimos 30 dias, encerrado em 13 de junho de 2026, está em sintonia com os níveis observados nos reservatórios. O Nordeste recebeu 195,9 milímetros em média entre suas cidades cobertas pelo Open-Meteo, e o Norte 280,8 milímetros, volumes típicos de períodos chuvosos nessas bacias. O Sudeste/Centro-Oeste acumulou apenas 39,4 milímetros, caracterizando um período seco para a região, enquanto o Sul registrou 133,1 milímetros, abaixo do esperado para o inverno austral em junho. A precipitação recente explica parcialmente por que os reservatórios do Norte e Nordeste estão cheios e os do Sul operando com menor folga.

Gráfico
Energia armazenada do Sudeste/Centro-Oeste (% do máximo), últimos 365 dias
67,2058,1449,0840,03 65,54 08/11 19/01 01/04 13/06
Fonte. ONS

A relação entre chuva e nível de reservatório não é instantânea. Há defasagem entre o momento em que a precipitação cai e quando ela efetivamente chega aos reservatórios, variação que depende da topografia e das características do solo de cada bacia. Bacias com relevo íngreme e solo impermeável respondem mais rápido. Bacias planas com solo arenoso retêm parte da água no lençol freático antes de liberar para os rios. Essa defasagem pode variar de dias a semanas, dependendo da região. No caso do Sudeste/Centro-Oeste, os 39,4 milímetros acumulados nos últimos 30 dias refletem o período seco típico do outono e início do inverno, quando a estação chuvosa já terminou e a próxima só começa em outubro.

Além disso, o nível de armazenamento é apenas uma das variáveis que determinam o custo da operação do sistema. Demanda de energia, preço do gás natural e decisões de despacho térmico também influenciam se o país acionará mais ou menos usinas a combustível fóssil. Reservatórios baixos criam condição para que isso aconteça, mas não garantem que acontecerá. O ONS considera ainda a previsão meteorológica de médio prazo, a disponibilidade de importação de energia da Argentina e do Uruguai, e o custo marginal de operação de cada usina térmica disponível. A decisão de despacho é otimização complexa que busca minimizar o custo total do sistema sem comprometer a segurança do suprimento.

Quando a geração térmica aumenta, o custo operacional do sistema sobe, pressão que eventualmente se reflete na bandeira tarifária e no índice de inflação de energia. A bandeira vermelha patamar 2, a mais cara, adiciona R$ 7,87 por 100 kWh consumidos. Para uma residência que consome 200 kWh por mês, isso representa acréscimo de cerca de R$ 15,74 na conta. O quadro atual, com o Sudeste em 65,54%, sugere que o sistema ainda opera com alguma flexibilidade, mas a heterogeneidade regional permanece como fator de atenção para os próximos meses. Se a seca persistir no Sudeste/Centro-Oeste e o Sul não recuperar níveis, o acionamento térmico pode se intensificar no segundo semestre, com impacto direto no bolso do consumidor e no índice de inflação.

Fonte. ONS · EAR Diário por Subsistema (dados.ons.org.br) Reportar erro