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Reservatórios do Norte e Nordeste estão cheios enquanto Sul opera em nível crítico

Disparidade de 38,58 pontos percentuais entre subsistemas reflete regimes de chuva desiguais nas bacias hidrográficas.

Em 23 de junho de 2026, os quatro subsistemas do Sistema Interligado Nacional apresentavam níveis de energia armazenada bastante desiguais. O Nordeste operava em 90,04%, o Norte em 94,98%, o Sudeste/Centro-Oeste em 65,53% e o Sul em 56,40%. A diferença entre o mais cheio e o mais crítico atingia 38,58 pontos percentuais, uma disparidade que reflete a heterogeneidade das bacias hidrográficas que alimentam cada região.

Essa distribuição desigual importa porque quando um subsistema opera em nível baixo, o operador do sistema precisa acionar usinas termelétricas para compensar a geração hidrelétrica reduzida, elevando o custo operacional. O subsistema Sudeste/Centro-Oeste, que concentra aproximadamente 70% da capacidade total do SIN, operava em patamar confortável mas não abundante. O Sul, por sua vez, era o subsistema mais crítico do país, com reservatórios em pouco mais da metade da capacidade máxima. Quando reservatórios operam abaixo de 60%, a pressão sobre o despacho térmico aumenta, e essa pressão no custo operacional eventualmente pode influenciar a bandeira tarifária e, em sequência, o IPCA de energia.

Os padrões de chuva dos últimos 30 dias, encerrados em 23 de junho de 2026, ajudam a explicar essa heterogeneidade. O Nordeste recebeu 163,8 milímetros em média entre suas cidades cobertas pelo Open-Meteo, enquanto o Norte acumulou 216,7 milímetros. Esses volumes estão em sintonia com os níveis altos de armazenamento em ambos os subsistemas. O Sudeste/Centro-Oeste, em contraste, recebeu apenas 38,3 milímetros no mesmo período, um regime mais seco que se reflete no nível moderado do seu reservatório. O Sul, com 132,1 milímetros acumulados, ficou numa posição intermediária de chuva, mas seu nível de armazenamento permanecia o mais pressionado do país.

A relação entre chuva e armazenamento não é instantânea nem linear. Afluências aos reservatórios dependem de toda a dinâmica da bacia hidrográfica, incluindo infiltração no solo, evapotranspiração, umidade antecedente e defasagem entre precipitação nas cabeceiras e chegada da água aos barramentos. Uma bacia com solo saturado converte chuva em afluência com mais eficiência do que uma bacia em período seco prolongado, onde parte significativa da precipitação é absorvida antes de chegar aos rios. Ainda assim, o padrão agregado dos últimos 30 dias oferece uma leitura clara: regiões que receberam mais chuva tendem a operar com reservatórios mais cheios, enquanto regiões em regime mais seco enfrentam pressão maior sobre o armazenamento.

O caso do Sul ilustra essa complexidade. Apesar de ter recebido 132,1 milímetros nos últimos 30 dias, volume superior ao do Sudeste/Centro-Oeste, o subsistema operava em 56,40%, o nível mais baixo do país. Isso sugere que o Sul vinha de um período anterior de chuvas abaixo da média, e os 132,1 milímetros recentes não foram suficientes para recuperar os reservatórios ao patamar confortável. A capacidade de armazenamento do Sul é menor em termos absolutos comparada ao Sudeste/Centro-Oeste, o que torna o subsistema mais sensível a variações no regime de chuvas. Quando a afluência cai, o impacto no percentual de armazenamento é mais rápido e mais visível.

O Operador Nacional do Sistema Elétrico, ONS, publica os níveis de energia armazenada diariamente, permitindo acompanhamento contínuo da dinâmica de cada subsistema. A energia armazenada, medida em percentual do máximo, é o principal indicador de segurança energética do país. Quando todos os subsistemas operam acima de 70%, o sistema tem margem confortável para enfrentar períodos secos sem acionar térmicas caras. Quando um ou mais subsistemas caem abaixo de 60%, o custo marginal de operação sobe, e o risco de bandeira tarifária vermelha aumenta.

Por enquanto, o Sudeste/Centro-Oeste em 65,53% e o Sul em 56,40% não sinalizam emergência, mas indicam que o sistema opera com menos margem de conforto do que quando todos os subsistemas estão acima de 70%. O próximo indicador relevante será a evolução da chuva nas próximas semanas. Se o regime seco se mantiver no Sudeste e no Sul, a pressão sobre os reservatórios tende a aumentar. Se chuvas retornarem aos patamares históricos para o período, o armazenamento deve se recuperar naturalmente, reduzindo a necessidade de despacho térmico e aliviando a pressão sobre a tarifa de energia.

Fonte. ONS · EAR Diário por Subsistema (dados.ons.org.br) Reportar erro