Prêmio de juros do Brasil recua, mas fluxo cambial inverte sinal em abril
Diferencial entre Selic e Fed Funds comprimiu 0,49 ponto percentual em seis meses, sinalizando carry trade menos atrativo.
A Selic está em 14,50% ao ano desde junho de 2026 e o Fed Funds em 3,63% ao ano desde maio de 2026, segundo dados do Banco Central do Brasil e do Federal Reserve. O diferencial entre as duas taxas chegou a 10,87 pontos percentuais, posicionando o prêmio de juros do Brasil sobre os Estados Unidos num patamar ainda elevado, mas em trajetória de compressão. Seis meses antes, esse diferencial era de 11,36 pontos percentuais, uma redução de 0,49 ponto percentual no período.
O carry trade funciona assim: quanto maior o prêmio de juros do Brasil sobre o exterior, mais atrativo fica trazer dólares para aplicar em ativos brasileiros e colher a diferença. A mecânica é simples. Um investidor estrangeiro toma emprestado em dólares a 3,63% ao ano nos Estados Unidos, converte para reais, aplica em títulos brasileiros que rendem 14,50% ao ano, e embolsa o diferencial de 10,87 pontos percentuais, descontado o custo de hedge cambial e o risco-país. Quando o diferencial se amplia, o fluxo cambial tende a se fortalecer no mês seguinte, porque mais capital estrangeiro entra no país atrás do prêmio. Quando se comprime, como está acontecendo, a lógica sugeriria saída de dólares ou pelo menos desaceleração das entradas.
Mas o fluxo cambial de abril de 2026 foi de US$ 9,2 bilhões positivos, uma entrada líquida de dólares que reverteu a média dos seis meses anteriores, que havia sido de US$ 3,0 bilhões negativos. Essa inversão de sinal ocorre justamente quando o diferencial se comprime, um padrão contrário ao que a mecânica pura do carry trade esperaria. O resultado sugere que outros motores além dos juros diferenciais operaram com força no período.
Risco-país, preços de commodities, sazonalidade e choques externos também pesam no fluxo cambial, e a volatilidade mês a mês é característica dessa série. O fluxo cambial total do Banco Central captura todas as operações de câmbio entre residentes e não residentes, incluindo comércio exterior, investimento direto, investimento em carteira e derivativos. Quando o número é positivo, mais dólares entraram do que saíram. Quando é negativo, houve saída líquida. A média negativa de US$ 3,0 bilhões nos seis meses anteriores a abril indica que o Brasil vinha perdendo dólares de forma consistente, seja por remessa de lucros, pagamento de importações ou saída de capital financeiro. A entrada de US$ 9,2 bilhões em abril quebra essa sequência.
Não é possível atribuir a entrada de abril exclusivamente ao diferencial de juros, porque o diferencial estava em trajetória de queda. O que pode ter trazido os dólares? Exportações de commodities agrícolas em alta, com safra recorde e preços internacionais firmes. Entrada de investimento direto em setores de infraestrutura ou energia. Redução temporária da aversão a risco global, com investidores voltando a emergentes depois de um período de fuga. Ou simplesmente sazonalidade, já que abril costuma ter fluxo mais positivo por conta do calendário de exportações do agronegócio.
A leitura antecipadora do carry trade, que usa o diferencial de juros de hoje para prever o fluxo cambial de amanhã, se sustenta apenas sob condições específicas. Não pode haver decisão do Copom ou do Federal Reserve que altere o diferencial entre agora e o próximo mês. Não pode haver choque externo agudo de aversão a risco que domine o fluxo independentemente dos juros. E o comportamento sazonal precisa ficar dentro do padrão, já que dezembro tem dinâmica própria de hedge cambial que desvia do normal.
O que invalidaria essa leitura é claro: uma mudança de Selic pelo Copom ou de Fed Funds pelo Federal Reserve que comprima ou amplie significativamente o diferencial. Um evento emergente global que cause fuga de risco, como crise bancária nos Estados Unidos ou escalada geopolítica. Ou um choque doméstico agudo, seja fiscal ou político, que altere a percepção de risco-país e afaste o capital estrangeiro independentemente do prêmio de juros. Qualquer um desses fatores pode fazer o fluxo cambial se mover na direção oposta ao que o diferencial de juros sugeriria.
Por enquanto, o diferencial em 10,87 pontos percentuais mantém o Brasil atrativo em termos relativos, mas a trajetória de compressão nos últimos seis meses indica que esse atrativo está diminuindo. O fluxo de abril mostrou que mesmo com carry menos generoso, outros fatores trouxeram dólares. A próxima leitura dependerá de como Copom e Federal Reserve se comportarem nas reuniões seguintes e se o cenário externo se mantém estável. Se o Fed começar a cortar juros mais rápido que o Copom, o diferencial pode voltar a se ampliar, reforçando o carry. Se o Copom cortar antes, o diferencial se comprime ainda mais, e o fluxo cambial pode voltar a ficar negativo, a menos que outros fatores compensem.