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Entrelinhas redação

Empresas mais endividadas demitem mais quando o crédito seca, mostra estudo do Banco Central

Estudo do BC com mais de 12 mil empresas (2013–2022): o aperto de crédito só derruba o emprego com força nas crises,

Empresas mais endividadas demitem mais quando o crédito seca, mostra estudo do Banco Central

Quando o crédito fica escasso em uma crise, quem mais sente o efeito são as empresas mais endividadas, que acabam cortando mais vagas para tentar preservar o caixa. É o que mostra um estudo publicado em maio pelo Banco Central, dentro da sua série Working Paper Series (número 648). O trabalho é assinado por José Marcelo Cardoso de Lima Filho, da UFSC, Michel Alexandre, do Departamento de Pesquisa do BC, e João Frois Caldeira, também da UFSC.

Os pesquisadores cruzaram três bancos de dados pesados. O Sistema de Informações de Crédito (SCR) do BC, a Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) do Ministério do Trabalho e a base contábil Alexandria, também do Banco Central. O resultado foi um retrato de mais de 12 mil empresas entre 2013 e 2022.

Esse período foi escolhido porque inclui três momentos econômicos bem diferentes no Brasil. A recessão e o ajuste fiscal entre 2013 e 2016. A recuperação lenta entre 2017 e 2019. E o choque da pandemia em 2020 e 2021.

A principal descoberta é que, na média de todo o período, oscilações na oferta de crédito quase não mudam o emprego. Mas no meio da recessão de 2013 a 2016, a história foi outra. Empresas com mais dívida em relação aos ativos cortaram muito mais vagas quando o crédito apertou. Quem tinha balanço folgado conseguiu segurar melhor o quadro de funcionários.

A explicação está no chamado “canal de balanço”, uma ideia clássica da economia. Empresa endividada precisa pagar dívida em dia, depende mais de financiamento externo e tem menos colchão para absorver choques. Quando o banco fecha a torneira, a primeira saída costuma ser cortar gente, que é uma despesa grande e ajustável.

Na recuperação de 2017 a 2019 e durante a pandemia, o efeito do crédito sobre o emprego praticamente desapareceu nas contas dos pesquisadores. A leitura é que, fora de momentos agudos de estresse financeiro, o crédito banco a banco influencia pouco as decisões de contratar ou demitir.

O estudo ainda divide os choques de crédito entre positivos (mais crédito disponível) e negativos (menos crédito disponível). O resultado reforça o desequilíbrio. Choques negativos em recessão derrubam o emprego nas empresas mais endividadas. Já choques positivos em períodos normais tendem a beneficiar mais quem tem pouca dívida. Mesmo durante a pandemia, com muita liquidez na praça, empresas alavancadas continuaram cortando vagas para reorganizar o caixa.

O trabalho também lembra a peculiaridade do mercado de crédito brasileiro, bastante concentrado. Cerca de 70% do crédito a empresas está em apenas seis bancos, sendo três públicos (Banco do Brasil, Caixa e BNDES) e três privados (Itaú, Bradesco e Santander).

As opiniões do estudo são dos autores e não representam, necessariamente, a posição oficial do Banco Central.

Estudo completo: Working Paper Series nº 648 (PDF).

Fonte. Banco Central · Working Paper Series nº 648 · BCB · Sistema de Informações de Crédito (SCR) · Ministério do Trabalho · RAIS · BCB · base contábil Alexandria Reportar erro