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Entrelinhas redação

Pandemia quebrou um tabu do mercado de trabalho brasileiro, mostra estudo do Banco Central

Cortes de salário são raros mesmo em recessões, mas a soma de crise sanitária, choque de crédito e a MP 936/2020 fez

Pandemia quebrou um tabu do mercado de trabalho brasileiro, mostra estudo do Banco Central

Existe uma regra quase universal no mercado de trabalho brasileiro. Salário, depois de combinado, raramente cai. Mas esse padrão foi quebrado durante a pandemia. É o que mostra um estudo publicado em maio pelo Banco Central, número 648 da série Working Paper Series. O trabalho é assinado por José Marcelo Cardoso de Lima Filho, doutorando da UFSC, Michel Alexandre, do Departamento de Pesquisa do BC, e João Frois Caldeira, da UFSC.

Os pesquisadores juntaram três grandes bases de dados. A folha de pagamento da RAIS, do Ministério do Trabalho. As operações de crédito registradas no SCR, do Banco Central. E informações contábeis das empresas pela base Alexandria, também do BC. Foram analisadas mais de 12 mil empresas entre 2013 e 2022.

A ideia central foi avaliar como choques na oferta de crédito bancário afetam o emprego e os salários nas empresas. Em outras palavras, quando o banco aperta ou afrouxa o crédito, o que acontece com a folha de pagamento?

No conjunto do período, o efeito sobre o salário foi muito fraco. Em momentos normais, as empresas resistem a cortar remuneração, mesmo quando estão sob pressão. Os economistas chamam isso de “rigidez salarial”. Os autores também testaram especificamente os anos da recessão entre 2013 e 2016 e da recuperação entre 2017 e 2019. Em ambos, o crédito apertou ou afrouxou e os salários praticamente não se mexeram em resposta.

Foi na pandemia que o padrão mudou. Em 2020 e 2021, empresas mais expostas a choques negativos de crédito passaram a reduzir os salários. Algo incomum no histórico recente do mercado de trabalho brasileiro.

Para os autores, o resultado precisa ser lido junto com o contexto institucional do período. A Medida Provisória 936/2020 criou o Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda. A medida permitiu que empresas, mediante acordo individual ou coletivo, reduzissem temporariamente a jornada e o salário em 25%, 50% ou 70%, por até 90 dias. O governo bancou parte da perda com um benefício emergencial.

Na prática, a MP funcionou como uma ponte legal que tornou possível fazer cortes salariais que, em condições normais, esbarrariam em contratos, convenções coletivas e desgaste de imagem.

O estudo também testou se empresas mais endividadas teriam comportamento mais agressivo na hora de cortar salário. A resposta foi inconclusiva. O endividamento, sozinho, está associado a salários menores, mas não foi possível afirmar com segurança que ele amplifica o efeito do crédito sobre a remuneração.

O artigo ainda destaca características do mercado de crédito brasileiro que ajudam a entender o resultado. A alta concentração bancária e o papel diferente do crédito público e privado em momentos de crise e recuperação.

As opiniões expressas no estudo são dos autores e não representam, necessariamente, a posição oficial do Banco Central.

Estudo completo: Working Paper Series nº 648 (PDF).

Fonte. Banco Central · Working Paper Series nº 648 · BCB · Sistema de Informações de Crédito (SCR) · Ministério do Trabalho · RAIS · BCB · base contábil Alexandria · Medida Provisória 936/2020 Reportar erro