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Entrelinhas redação

Bancos estrangeiros acharam um atalho para emprestar a pequenas empresas no Brasil

Em São Paulo, a chance de uma PME conseguir crédito num banco estrangeiro sobe 22% se ela já tomou crédito num banco

Bancos estrangeiros acharam um atalho para emprestar a pequenas empresas no Brasil

Pequenas e médias empresas têm vida mais difícil para conseguir crédito em bancos estrangeiros, e isso é fato conhecido no mundo todo. Mas, no Brasil, os bancos estrangeiros parecem ter encontrado um atalho. Eles usam as decisões recentes de bancos privados brasileiros como pista para decidir se aprovam ou não o empréstimo. É o que mostra um estudo publicado em maio pelo Banco Central, número 647 da série Working Paper Series. O trabalho é assinado por Carlos Carvalho, da PUC-Rio, Bruno Perdigão, do FMI, e Ricardo Schechtman, do Banco Central.

A pergunta de fundo é uma só. Por que bancos estrangeiros, mesmo crescendo no mundo nos últimos 30 anos, evitam emprestar para empresas menores? A resposta tradicional na literatura é que eles têm dificuldade para avaliar a chamada “informação soft”. Aquela informação que não cabe em planilha, como reputação, qualidade do dono, histórico de relacionamento e características qualitativas do negócio. Empresas pequenas têm pouca informação pública disponível e dependem muito desse tipo de avaliação.

Os pesquisadores investigaram se os bancos estrangeiros conseguiram contornar essa dificuldade no Brasil. A hipótese é simples. Se uma empresa pequena conseguiu crédito recente em um banco privado brasileiro, que é bom em avaliar esse tipo de cliente, o banco estrangeiro pode usar isso como um “atestado” informal de qualidade.

Para testar a ideia, os autores cruzaram dois bancos de dados do Banco Central. As consultas que os bancos fazem ao SCR sobre potenciais clientes, que servem como aproximação para pedidos de crédito. E as efetivas concessões de empréstimo registradas no mesmo sistema. A amostra cobriu cerca de 409 mil consultas mensais entre janeiro de 2013 e setembro de 2016, restritas a empresas sediadas na cidade de São Paulo, centro financeiro do país.

O resultado confirma a hipótese. Quando uma pequena empresa pede crédito em um banco estrangeiro, a chance de o empréstimo ser aprovado sobe 2,5 pontos percentuais se ela tomou crédito em um banco privado brasileiro nos três meses anteriores. Isso equivale a um aumento de 22% sobre a probabilidade normal de aprovação por bancos estrangeiros. Para grandes empresas, esse efeito não aparece.

Os pesquisadores também testaram se empréstimos recentes em outros bancos estrangeiros teriam o mesmo efeito. Não tiveram. A leitura é que o “atestado” valioso vem mesmo dos bancos privados nacionais, justamente porque eles têm vantagem para avaliar empresas com pouca informação pública. Empréstimos recentes em bancos públicos também não geraram o efeito, conclusão coerente com a ideia de que o crédito desses bancos pode considerar outros fatores além do risco da empresa.

O resultado é robusto. Sobrevive a testes com diferentes definições de pequena empresa, com janelas de tempo de três ou seis meses e a especificações econométricas mais rígidas.

Como recomendação, os autores defendem que reduzir as barreiras de informação entre os bancos pode equilibrar o jogo. Bureaus de crédito mais robustos e mais informação pública disponível ajudariam. Mas alertam para um lado preocupante. Esse comportamento de seguir as decisões dos pares torna o sistema vulnerável. Se um banco brasileiro muda a avaliação de risco de uma pequena empresa por algum motivo, todos os bancos estrangeiros tendem a seguir o movimento, amplificando o efeito sobre o tomador.

As opiniões expressas no estudo são dos autores e não representam, necessariamente, a posição oficial do Banco Central.

Estudo completo: Working Paper Series nº 647 (PDF).

Fonte. Banco Central · Working Paper Series nº 647 · BCB · Sistema de Informações de Crédito (SCR) Reportar erro