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Entrelinhas redação

Por que sua pequena empresa pode pagar mais caro por crédito sem ter feito nada errado

Bancos estrangeiros tendem a seguir decisões recentes de bancos nacionais ao avaliar pedidos de crédito de PMEs — um efeito manada que

Por que sua pequena empresa pode pagar mais caro por crédito sem ter feito nada errado

Quando um banco brasileiro libera crédito para uma pequena empresa, ele pode estar, sem querer, abrindo a porta para que outros bancos também liberem. Em particular bancos estrangeiros, que costumam ter mais dificuldade para avaliar esse tipo de cliente. O comportamento, comum entre instituições financeiras, foi mapeado em um estudo divulgado em maio pelo Banco Central, dentro da sua série Working Paper Series (número 647). O trabalho é assinado por Carlos Carvalho, da PUC-Rio, Bruno Perdigão, do FMI, e Ricardo Schechtman, do Banco Central.

A pesquisa começa por uma característica conhecida do mercado bancário brasileiro. A concentração é alta. Segundo os autores, cerca de 70% do crédito a empresas está em apenas seis bancos. Em São Paulo, 132 bancos operam no mercado de crédito a empresas, mas só os dez maiores respondem por aproximadamente 85% das consultas que indicam pedido de empréstimo. Bancos estrangeiros são 60 e detêm cerca de 30% das novas operações e 39% do estoque total de crédito a empresas paulistas. A clientela, porém, é diferente. Estrangeiros concentram suas carteiras em empresas maiores. Os domésticos atendem mais o universo das PMEs.

Esse padrão tem explicação clássica. Bancos estrangeiros têm sede longe, hierarquias mais complexas e menos familiaridade cultural com o mercado local. Tudo isso dificulta a avaliação de empresas pequenas, que dependem muito de informação informal e de relacionamento. Por isso, eles tendem a fugir desse perfil de cliente.

O ponto novo do trabalho é mostrar como esses bancos contornaram a limitação. Os pesquisadores cruzaram as consultas que os bancos fazem ao SCR sobre potenciais clientes com as efetivas concessões de crédito. Concluíram que bancos estrangeiros tendem a seguir as decisões recentes dos bancos privados nacionais quando o cliente é uma PME. Se uma pequena empresa obteve crédito recente em um banco doméstico, sobe em 2,5 pontos percentuais a probabilidade de ela também conseguir empréstimo em um banco estrangeiro. Para grandes empresas, esse efeito desaparece.

Os pesquisadores conectam o resultado a um modelo teórico bastante citado em economia, das chamadas “cascatas informacionais”. A ideia é que, em situações em que os agentes têm informação diferente, os menos informados acabam seguindo as decisões dos mais informados, criando um comportamento de manada. Trazido para o crédito brasileiro, o padrão sugere que bancos domésticos, melhor equipados para avaliar empresas opacas, decidem primeiro, e bancos estrangeiros usam isso como pista.

O lado preocupante do mecanismo é a fragilidade que ele esconde. Se os bancos domésticos mudam sua percepção sobre o risco de uma empresa pequena, mesmo sem motivo claro, o efeito é repassado rapidamente para o conjunto dos bancos estrangeiros. O tomador acaba pagando uma conta maior do que justificaria a sua situação real.

Para o regulador, isso traz uma reflexão. As métricas tradicionais de concentração bancária não capturam esse tipo de risco. Como recomendações, o estudo aponta o fortalecimento de bureaus de crédito e a disponibilização de informações agregadas, por tipo de banco, sobre os credores anteriores de cada empresa. Isso poderia reduzir a dependência das instituições menos informadas em relação ao comportamento dos pares.

As opiniões expressas no estudo são dos autores e não representam, necessariamente, a posição oficial do Banco Central.

Estudo completo: Working Paper Series nº 647 (PDF).

Fonte. Banco Central · Working Paper Series nº 647 · BCB · Sistema de Informações de Crédito (SCR) Reportar erro