Custo do crédito sobe 0,64 ponto percentual em três meses enquanto varejo acelera
O Indicador de Custo do Crédito atingiu 24,10% ao ano em março de 2026, consolidando trajetória de alta que começou no final
O Indicador de Custo do Crédito atingiu 24,10% ao ano em março de 2026, consolidando trajetória de alta que começou no final de 2025 e que historicamente antecede desaceleração do consumo das famílias. O patamar atual supera em 0,35 ponto percentual a média recente de 23,75% ao ano, calculada sobre os seis meses anteriores. Em três meses, o ICC acumula alta de 0,64 ponto percentual, sinalizando encarecimento persistente do dinheiro no Sistema Financeiro Nacional e ambiente de crédito mais restritivo para pessoas físicas.
O Indicador de Custo do Crédito, ou ICC, é uma medida que consolida o custo médio das operações de crédito no país, ponderando taxas de diferentes modalidades como crédito pessoal, cheque especial, cartão de crédito rotativo e financiamento de veículos. Quando esse indicador sobe de forma persistente, o consumo das famílias tende a desacelerar em um intervalo de 60 a 90 dias, período necessário para que o encarecimento do crédito ao consumidor se traduza em menor demanda por compras financiadas. A defasagem existe porque contratos já firmados mantêm as taxas antigas, e o consumidor leva tempo para ajustar o comportamento ao novo patamar de juros.
Apesar desse cenário de crédito mais caro, o volume de vendas da Pesquisa Mensal de Comércio ampliada apresentou alta de 6,50% na comparação anual em março de 2026. O dado contrasta fortemente com a queda de 2,10% registrada no mês anterior, sugerindo que o varejo ainda mantém resiliência e que fatores sazonais ou pontuais podem ter impulsionado as vendas naquele mês específico. Essa disparidade entre o custo do crédito e o volume de vendas é comum no curto prazo, já que a transmissão da política monetária para o consumo real não é instantânea e depende de múltiplos canais além do crédito, como renda disponível, confiança do consumidor e nível de emprego.
A pressão inflacionária no setor de serviços, outro componente importante para entender a dinâmica do consumo, segue comportada. O IPCA grupo serviços registrou variação de 0,53% em março de 2026, mantendo-se abaixo da média de 0,78% observada nos últimos 12 meses. Esse resultado sugere que o encarecimento do crédito ainda não se traduziu em desaceleração clara dos preços de serviços, que possuem componentes inerciais e defasagem maior na resposta a choques monetários. Serviços como alimentação fora do domicílio, cabeleireiro, mensalidade escolar e plano de saúde tendem a reajustar preços com base em contratos anuais ou em expectativas de inflação futura, não em variações mensais do custo do crédito.
O cruzamento entre ICC e PMC revela tensão entre política monetária e atividade econômica. O Banco Central, ao elevar a Selic, encarece o custo do crédito com defasagem de algumas semanas, e esse encarecimento deveria, em tese, esfriar o consumo e ajudar a controlar a inflação. O fato de o varejo ter acelerado em março, mesmo com o ICC em alta, pode indicar que outros fatores estão compensando o aperto monetário no curto prazo, como programas governamentais de crédito subsidiado, liberação de FGTS, pagamento de décimo terceiro antecipado ou simplesmente sazonalidade forte no mês. A PMC mede apenas o comércio varejista e não captura a totalidade do consumo das famílias, que inclui serviços e bens duráveis adquiridos fora do varejo tradicional.
Vale considerar que o sinal aqui é estatístico e não causal. O efeito do ICC no consumo das famílias depende da evolução da renda real, do nível de emprego, do estoque de endividamento prévio e da confiança do consumidor. Mudanças na Selic, que o ICC responde com defasagem, ou alterações em programas governamentais de crédito podem modificar a dinâmica do canal de transmissão nos próximos meses. O dado de março de 2026 mostra o varejo ainda resistindo ao aperto, mas a persistência da alta do ICC sugere que a desaceleração pode estar apenas adiada, não cancelada.