Etanol hidratado cai 21,5% em 30 dias enquanto açúcar recua apenas 2,5%
O etanol hidratado fechou em R$ 2,32 por litro na referência de 30 de abril de 2026, marcando queda de 21,5% nos
O etanol hidratado fechou em R$ 2,32 por litro na referência de 30 de abril de 2026, marcando queda de 21,5% nos últimos 30 dias. O movimento é desproporcional ao recuo do açúcar, que caiu 2,5% no mesmo período, e ao enfraquecimento do real ante o dólar, que cedeu 4,4%. Essa divergência sinaliza pressão de oferta nas usinas do Centro-Sul, onde a decisão sobre quanto de cana processar para etanol versus açúcar está se movimentando em favor do segundo.
O etanol não tem preço tabelado pela Petrobras nem sofre paridade de importação direta como a gasolina. Seu valor se forma nas usinas a partir de um trade-off econômico simples, mas poderoso: a mesma tonelada de cana pode virar etanol ou açúcar, e a usina escolhe conforme o que rende mais no momento da moagem. Quando o açúcar internacional fica atrativo ou o câmbio sobe, tornando a exportação mais lucrativa em reais, a cana vai para açúcar e a oferta de etanol aperta no mercado doméstico. Quando o etanol fica caro relativamente ao açúcar, a usina muda o mix de produção na direção oposta. Os números dos últimos 30 dias sugerem que algo está empurrando a cana para açúcar, mesmo com o câmbio enfraquecido, o que normalmente tornaria a exportação de açúcar menos atrativa.
Essa dinâmica de mix de produção é central para entender o mercado de etanol no Brasil. As usinas do Centro-Sul, responsáveis por cerca de 90% da produção nacional de cana, operam com flexibilidade técnica para ajustar a proporção entre etanol e açúcar ao longo da safra. A decisão não é binária, cada usina pode produzir ambos simultaneamente, mas a margem de ajuste é significativa. Quando o açúcar está mais rentável, a usina pode direcionar até 60% da cana para açúcar, reduzindo drasticamente a oferta de etanol. Quando o etanol compensa mais, o mix pode inverter. Esse ajuste fino acontece semana a semana, conforme os preços relativos se movem.
A queda de 21,5% no etanol em 30 dias, contrastando com apenas 2,5% no açúcar, sugere que a oferta de etanol aumentou significativamente no período, possivelmente porque as usinas anteciparam a moagem ou porque a demanda por etanol enfraqueceu mais rápido que o esperado. O câmbio enfraquecido de 4,4% deveria, em tese, desestimular a exportação de açúcar e liberar mais cana para etanol, mas o movimento observado foi o oposto. Isso pode indicar que a demanda internacional por açúcar permaneceu firme o suficiente para compensar o câmbio menos favorável, ou que a expectativa de safra maior no Centro-Sul está pressionando os preços domésticos do etanol antes mesmo de a colheita acelerar.
Para o consumidor flex, aquele que escolhe entre etanol e gasolina na bomba conforme o preço relativo, a relação etanol sobre gasolina está em 69,3% na referência de 30 de abril de 2026. Esse número é crítico porque define a viabilidade econômica do etanol. A regra prática amplamente aceita no mercado é que o etanol compensa quando custa menos de 70% do preço da gasolina, já que seu rendimento energético é cerca de 30% inferior ao da gasolina. Quando a relação fica acima de 70%, o motorista flex perde dinheiro usando etanol, mesmo que o preço nominal seja menor.
Com a relação em 69,3%, o etanol está muito próximo do ponto de indiferença. Historicamente, quando essa relação cai abaixo de 70% e se sustenta por algumas semanas, consumidores começam a preferir etanol, aumentando a demanda e pressionando o preço para cima. Se a relação subir acima de 70% e permanecer lá, a demanda por etanol tende a cair, o que pode pressionar ainda mais o preço para baixo, criando um ciclo de realimentação. A proximidade atual aos 69,3% coloca o mercado em um ponto de inflexão, onde pequenas variações de preço podem desencadear mudanças significativas no comportamento do consumidor.
O câmbio enfraquecido de 4,4% em 30 dias normalmente tornaria o açúcar exportável menos atrativo para as usinas, já que cada dólar recebido na exportação vale menos reais. Mas o açúcar caiu apenas 2,5%, sugerindo que há fatores além do câmbio operando. Pode ser expectativa de safra maior no Centro-Sul, sinalizando oferta abundante à frente, ou sinais de demanda interna de etanol mais fraca do que o esperado, liberando cana para açúcar sem pressionar tanto o preço. Sem dados de açúcar internacional, como a cotação Sugar número 11 da ICE Futures, e sem a estimativa de safra de cana da Unica ou Conab, não é possível quantificar a probabilidade dessa leitura com precisão estatística. A interpretação aqui é descritiva da direção observada nos dados disponíveis, não uma projeção com intervalo de confiança.
A leitura se sustenta enquanto a relação etanol sobre gasolina permanecer próxima aos 69,3% ou cair gradualmente, o trade-off nas usinas não mudar abruptamente em favor do etanol, e não houver alteração de ICMS estadual sobre etanol ou do mandato de mistura de anidro na gasolina. Se o açúcar internacional disparar, se o câmbio se fortalecer significativamente, ou se a safra de cana do Centro-Sul acelerar de forma inesperada, a leitura se inverte e a pressão muda de direção. Mudanças de política fiscal ou mandato de mistura também podem reescrever o cenário rapidamente, como já aconteceu em ciclos anteriores.
Para o motorista flex, a dinâmica importa porque determina se o etanol vai ficar mais ou menos atrativo na bomba nos próximos meses. Para o setor de combustíveis, sinaliza se a oferta de etanol vai apertar ou afrouxar, afetando margens de distribuição e estratégias de estoque. Os números de 30 de abril de 2026 descrevem uma direção clara de pressão de oferta no etanol, mas os gatilhos listados acima dirão se ela se sustenta ou se reverte nas próximas semanas.