Commodities agrícolas em reais voltam a subir após queda trimestral
Reversão de tendência no índice IC-Br pode pressionar inflação de alimentos nos próximos meses.
O índice de preços internacionais de commodities agrícolas, convertido em reais pela cotação do dólar, marcou 437,75 pontos em maio de 2026, segundo dados do Banco Central. O número representa uma reversão de tendência: depois de recuar 2,10% nos 90 dias anteriores, a série subiu 0,90% no mês mais recente, sinalizando volatilidade que costuma repercutir na inflação de alimentos domésticos com defasagem de dois a quatro meses.
O índice que alimenta essa leitura é o IC-Br agropecuário, calculado pelo Banco Central a partir de preços internacionais de commodities ponderados pela cesta exportadora brasileira. Diferente de um índice de preços ao consumidor, ele mede o que o Brasil recebe lá fora pelos seus produtos agrícolas, convertido para reais. Quando sobe, sinaliza pressão de custos nos insumos importados e nos produtos que o Brasil exporta. Quando cai, sugere alívio nessa pressão. O IPCA de alimentos no domicílio, por sua vez, incorpora essa pressão internacional, mas também passa por logística, tributação e margem comercial do varejo. Por isso a correlação entre série internacional e inflação doméstica é parcial e variável no tempo.
A trajetória recente mostra essa volatilidade com clareza. Nos 90 dias encerrados em maio de 2026, o índice recuou 2,10%, movimento que poderia sugerir alívio inflacionário adiante. Mas no mês mais recente, entre abril e maio de 2026, inverteu a direção e ganhou 0,90%, voltando a pressionar. Esse tipo de movimento, quando sustentado, tende a repercutir no preço que o consumidor paga pela comida nos dois a quatro meses seguintes, embora nem sempre com a mesma intensidade que aparece na série internacional.
O repasse dessa pressão depende de três fatores principais. Primeiro, o câmbio: se o real se valorizar fortemente contra o dólar, parte do aumento de preço internacional fica absorvida pela moeda, reduzindo o repasse ao consumidor. A taxa de câmbio funciona como amortecedor ou amplificador da pressão externa. Quando o dólar sobe contra o real, commodities cotadas em dólar ficam mais caras em reais, mesmo que o preço internacional esteja estável. Quando o real se fortalece, o efeito é inverso. Esse mecanismo explica por que o IC-Br agropecuário, que já embute a conversão cambial, é um indicador mais direto da pressão que chega ao mercado doméstico do que índices internacionais puros.
Segundo, a safra doméstica: uma colheita abundante pode desacoplar os preços internos dos preços lá fora, mantendo a inflação de alimentos contida mesmo com commodities caras. O Brasil é grande produtor e grande exportador de grãos, carnes e açúcar. Quando a safra é farta, o mercado interno fica abastecido e os preços tendem a ceder, independentemente do que acontece no mercado internacional. Quando a safra decepciona, o país compete com o mercado externo pelo produto, e os preços internos sobem em sintonia com os internacionais. A safra de grãos 2025/2026, por exemplo, vinha sendo projetada como recorde em volume, o que poderia amortecer parte da pressão vinda do IC-Br agro.
Terceiro, a margem varejista: quando o comércio está sob pressão, pode absorver parte do custo em vez de repassar integralmente ao preço final. Supermercados e atacadistas operam com margens que variam conforme a concorrência, o volume de vendas e a capacidade de estocar produto. Em momentos de demanda fraca, o varejo tende a segurar preço para não perder cliente. Em momentos de demanda forte, repassa o custo com mais facilidade. A dinâmica do varejo brasileiro nos últimos meses vinha sendo de competição acirrada, com promoções frequentes e margens comprimidas, o que poderia limitar o repasse da alta do IC-Br agro ao consumidor final.
O IPCA mensal de referência mais próxima, em abril de 2026, estava em 0,58%, dentro do padrão recente. Isso sugere que as pressões internacionais ainda não se traduziram plenamente em preços ao consumidor até agora. Mas a reversão de tendência do IC-Br agro, com a série voltando a subir após queda trimestral, é sinal de que essa pressão pode ganhar força nos próximos meses, dependendo de como os três fatores acima se comportarem. A defasagem típica de dois a quatro meses entre movimento do índice e repasse ao IPCA de alimentos significa que o efeito da alta de maio de 2026 poderia aparecer entre julho e setembro, caso se sustente.
A leitura tem ressalvas importantes. O IC-Br mede preço internacional em reais, mas o IPCA de alimentos depende ainda de logística, tributação e margem comercial. A correlação entre série internacional e inflação doméstica é variável no tempo e não mecânica. Janelas superiores a 90 dias carecem de base comparável suficiente nesta série, o que limita a capacidade de situar o movimento atual em contexto histórico mais longo. O índice também não captura choques climáticos localizados, como geadas ou secas regionais, que podem afetar preços domésticos sem aparecer na série internacional. Por isso, o IC-Br agro funciona melhor como indicador de tendência do que como ferramenta de projeção precisa da inflação de alimentos.