Real valorizou 2,4% em 90 dias, mas IPCA de duráveis segue em alta
O real acumulou valorização de 2,39% frente ao dólar no intervalo de 90 dias encerrado em 26 de maio de 2026, período
O real acumulou valorização de 2,39% frente ao dólar no intervalo de 90 dias encerrado em 26 de maio de 2026, período em que a taxa de câmbio passou de R$ 5,1437 para R$ 5,0208. Apesar do movimento de apreciação da moeda brasileira, o IPCA de bens duráveis registrou alta de 0,45% em abril de 2026, resultado levemente acima da média de 0,41% observada nos seis meses anteriores.
Bens duráveis formam o grupo do IPCA mais exposto a oscilações no câmbio, dada a alta parcela de componentes importados ou precificados em moeda estrangeira na composição final dos produtos. Eletrodomésticos, eletrônicos e automóveis carregam insumos que vêm de fora ou dependem de cotação internacional, o que torna seus preços sensíveis ao movimento do dólar. Quando o real se fortalece, a expectativa natural é que o custo de reposição desses itens caia, abrindo espaço para redução de preços ao consumidor final. O dado de abril, contudo, mostra que esse repasse ainda não aconteceu.
O repasse cambial para preços ao consumidor não ocorre de forma mecânica nem imediata. A literatura econômica e os dados do Banco Central indicam que o repasse para bens duráveis costuma ocorrer com defasagem de 60 a 90 dias, janela que reflete o tempo entre a compra do insumo importado, a chegada ao porto, o desembaraço alfandegário, a montagem do produto final e a chegada à prateleira. Além disso, o varejo trabalha com estoques que foram adquiridos em momentos anteriores, quando o câmbio estava em patamares mais elevados. Isso significa que o produto vendido em abril pode carregar custos de aquisição de janeiro ou fevereiro, quando o dólar estava acima de R$ 5,14.
Outra variável relevante é a margem de comercialização. Quando o câmbio cai, o varejista pode optar por não repassar integralmente o alívio ao consumidor, absorvendo parte da variação favorável para recompor margens que foram comprimidas em momentos de câmbio desfavorável. Esse comportamento é comum em setores de alta competição, onde a elasticidade-preço da demanda é elevada e o varejista prefere manter o preço estável para não perder volume de vendas. O dado de abril sugere que essa dinâmica pode estar em curso, com o varejo segurando preços enquanto reconstitui margens.
A leitura de alívio cambial futuro nos preços de duráveis depende de algumas premissas operacionais. O cenário pressupõe a ausência de alterações nas alíquotas de Imposto de Importação ou IPI sobre eletrônicos e veículos, além da inexistência de programas de incentivo ao setor automotivo que possam atuar como redutores de preço artificialmente. Eventuais choques cambiais bruscos que alterem o sinal da tendência observada nos últimos 90 dias também invalidariam a expectativa de arrefecimento nos preços de duráveis. Se o dólar voltar a subir de forma acentuada, o repasse favorável que ainda não chegou ao consumidor pode simplesmente não chegar.
O movimento atual sinaliza que, embora a pressão externa tenha cedido, o repasse para o IPCA de duráveis ainda não se materializou nas prateleiras. O acompanhamento das próximas leituras mensais indicará se o alívio cambial será, de fato, repassado ao consumidor ou se a dinâmica de estoques e margens continuará a sustentar os preços em patamares superiores ao esperado pela variação da taxa de câmbio. Para o consumidor que aguarda queda de preços em eletrônicos ou eletrodomésticos, a mensagem é de paciência condicional: o alívio pode vir, mas ainda não está garantido.