Real ganhou força nos últimos 90 dias e tende a aliviar inflação de bens duráveis
Apreciação cambial entre março e junho antecede redução de pressão em eletrônicos, eletrodomésticos e veículos.
Entre 13 de março e 12 de junho de 2026, o real ganhou 3,26% de força frente ao dólar, com a PTAX saindo de R$ 5,2538 para R$ 5,0824. Esse movimento cambial, quando sustentado por três meses consecutivos, costuma antecipar alívio na inflação de bens duráveis nos meses seguintes, por conta da defasagem típica entre variação cambial e repasse aos preços no varejo.
Bens duráveis são o recorte do IPCA mais exposto ao câmbio. O grupo inclui eletrônicos, eletrodomésticos, móveis planejados, veículos novos e usados, artigos de decoração e equipamentos de informática. Quando o dólar fica mais caro, importadores e fabricantes que dependem de componentes estrangeiros enfrentam pressão para repassar a alta aos preços finais. O inverso também vale: quando o real se fortalece, como ocorreu entre março e junho de 2026, a pressão cambial cede. Mas esse repasse não é imediato. A defasagem típica entre movimento cambial e variação de preço nesse grupo fica entre 60 e 90 dias, o que significa que a apreciação do real observada em março e abril tende a se refletir em inflação menor de duráveis em junho e julho.
O IPCA de bens duráveis em abril de 2026, referente ao mês de março, ficou em 0,45% ao mês, ligeiramente acima da média dos 6 meses anteriores, que era 0,41%. O número sugere que o repasse cambial anterior, de um período em que o real estava mais fraco, ainda estava em curso quando o dado foi coletado. Se o padrão de defasagem se mantiver, a inflação deste grupo deve ceder nos próximos meses, sinalizando que a apreciação recente do real está começando a produzir efeito prático nos preços ao consumidor.
A defasagem de 60 a 90 dias não é arbitrária. Ela reflete o tempo que leva para um importador fechar contratos de câmbio, receber mercadoria no porto, desembaraçar na alfândega, distribuir para o varejo e, finalmente, ajustar etiquetas nas lojas. No caso de veículos, a defasagem pode ser ainda maior, porque montadoras costumam travar preços de tabela por trimestre e só ajustam quando há pressão acumulada significativa. Já eletrônicos e eletrodomésticos respondem mais rápido, especialmente em categorias com alta rotatividade de estoque, como smartphones e televisores.
Mas a leitura tem ressalvas importantes. O repasse câmbio-preço em bens duráveis não é mecânico. Depende de alíquotas de Imposto de Importação e IPI sobre eletrodomésticos e veículos, de programas de incentivo ao setor automotivo como o Carro Sustentável, do ciclo de estoque nas lojas e da margem que o varejo consegue manter sem perder competitividade. Se houver mudança de política tributária nos próximos 30 dias, ou se um novo choque cambial brusco desvalorizar o real antes do repasse atual se completar, o padrão se quebra. Além disso, a inflação de duráveis também responde a fatores domésticos, como crédito ao consumidor, taxa de juros do financiamento de veículos e confiança do consumidor, que podem amplificar ou amortecer o efeito cambial.
Outro ponto relevante é que a apreciação do real entre março e junho de 2026 ocorreu em contexto de dólar global relativamente estável, o que sugere que o movimento foi mais doméstico do que externo. Isso aumenta a probabilidade de que o alívio cambial se sustente por tempo suficiente para completar o ciclo de repasse aos preços, mas não elimina o risco de reversão caso haja choque fiscal ou mudança abrupta no cenário externo.
A leitura se sustenta apenas se não houver essas interrupções. Nesse cenário, o alívio cambial observado entre março e junho antecede redução de pressão inflacionária em eletrônicos, eletrodomésticos e veículos, com a defasagem típica do grupo. É um indicador de tendência, não uma garantia de resultado. Para o consumidor que planeja compra de bem durável, o sinal é de que os próximos meses podem trazer preços relativamente mais favoráveis do que os observados no primeiro trimestre de 2026, desde que o real mantenha a força recente.