Real mais forte nos últimos 90 dias antecede alívio em bens duráveis
Apreciação cambial de 2,29% sinaliza moderação de preços em eletrônicos e veículos nos próximos dois meses.
A PTAX fechou em R$ 5,1392 por dólar no pregão de 22 de junho de 2026, ante R$ 5,2596 em 24 de março de 2026. O real ganhou força de 2,29% nesse intervalo de 90 dias, movimento que tende a antecedar moderação nos preços de bens duráveis, o recorte do IPCA mais exposto às oscilações cambiais. A defasagem típica entre a variação cambial e o ajuste de preços nesse grupo fica entre 60 e 90 dias, o que coloca o pico do efeito entre o final de junho e o final de julho de 2026.
Bens duráveis englobam eletrodomésticos, eletrônicos, móveis e automóveis. Esses produtos têm alta participação de insumos importados ou componentes precificados em dólar, o que torna o grupo sensível a flutuações da taxa de câmbio. Quando o real se enfraquece, os importadores tendem a repassar a alta aos preços finais. Quando o real se fortalece, como ocorreu nos últimos três meses, o repasse funciona em sentido inverso: pressão para baixo nos preços. Esse mecanismo não é imediato porque os varejistas trabalham com estoques comprados a preços anteriores, e os importadores negociam contratos de câmbio com antecedência. O ajuste de preços ao consumidor final só acontece quando o novo custo cambial chega às prateleiras, processo que leva de dois a três meses.
O IPCA de bens duráveis em maio de 2026 registrou deflação de 0,08%, uma desaceleração significativa frente à média dos seis meses anteriores, que havia sido de 0,42% ao mês. Essa queda coincide com o período em que a apreciação do real começava a se consolidar, sugerindo que o alívio cambial já está operando. A deflação de maio ainda é modesta porque o real só começou a ganhar força consistentemente a partir de março de 2026, e o repasse de preços carrega a defasagem natural do ciclo de estoque e precificação. O dado de maio de 2026, divulgado pelo IBGE em 1º de junho de 2026, refere-se à coleta de preços realizada ao longo do mês de maio, quando parte dos produtos nas lojas ainda refletia custos cambiais de janeiro e fevereiro.
A leitura condicional dessa associação depende, porém, de cenários que se mantenham estáveis. Se não houver mudança nas alíquotas de Imposto de Importação ou IPI sobre eletrônicos e veículos, se não for anunciado um programa de incentivo ao setor automotivo que segure artificialmente os preços, e se o real não sofrer um novo choque cambial brusco que inverta o movimento já observado, então a tendência de moderação em duráveis tende a se confirmar nos próximos dois meses. O repasse câmbio-preço, porém, não é mecânico: depende também do ciclo de estoque dos varejistas, da margem comercial e de decisões de precificação das empresas importadoras. Varejistas com estoque alto comprado a câmbio mais caro podem segurar preços por mais tempo para não amargar prejuízo. Importadores com contratos de hedge cambial podem não repassar a apreciação do real imediatamente, preferindo recompor margem.
Qualquer anúncio de política tributária ou programa de subsídio ao setor automotivo, como o Carro Sustentável, pode interromper ou atenuar esse repasse. Do mesmo modo, uma nova desvalorização do real antes de julho de 2026 invalidaria a leitura. O IPCA de duráveis de junho de 2026 ainda não foi divulgado e será conhecido apenas em julho de 2026, quando parte do efeito cambial já terá se materializado nos preços. A expectativa é que a deflação se aprofunde ou ao menos se mantenha, caso o real permaneça estável ou continue ganhando força. Se o dado de junho vier positivo, será sinal de que outros fatores, como reajustes de margem ou pressão de demanda, estão compensando o alívio cambial.
Para o consumidor, a apreciação do real nos últimos 90 dias significa que produtos como televisores, geladeiras, smartphones e automóveis importados tendem a ficar mais baratos nos próximos meses, desde que o cenário cambial se mantenha. Para quem planeja compra de bem durável, vale considerar que o pico do repasse cambial ainda está por vir, entre o final de junho e o final de julho de 2026. Para o Banco Central, a moderação em duráveis alivia a pressão inflacionária geral, mas o efeito é limitado: bens duráveis têm peso relativamente pequeno no IPCA cheio, e o núcleo da inflação, que exclui alimentos e energia, responde mais a serviços e bens não duráveis do que a eletrônicos e veículos.