Cooperativas detêm 5,26% do crédito a pessoas físicas no SFN
As cooperativas de crédito registraram saldo de R$ 80,2 bilhões em operações de crédito para pessoas físicas em janeiro de 2022, segundo
As cooperativas de crédito registraram saldo de R$ 80,2 bilhões em operações de crédito para pessoas físicas em janeiro de 2022, segundo dados do Banco Central. O montante representa uma participação de 5,26% no saldo total de R$ 1,53 trilhão do Sistema Financeiro Nacional (SFN) para o mesmo segmento e período.
A fatia pode parecer modesta quando comparada aos grandes bancos comerciais, mas carrega significado estrutural. O modelo cooperativo opera sob lógica distinta da bancária tradicional. Nele, o associado é também dono da instituição, participa das assembleias que definem rumos estratégicos e tem direito aos excedentes financeiros proporcionais ao uso dos serviços. Essa estrutura de governança compartilhada permite, em diversos casos, taxas de juros mais competitivas para o tomador e remuneração mais atrativa para o poupador, já que não há acionista externo exigindo dividendo.
O cooperativismo de crédito no Brasil cresceu de forma consistente nas últimas duas décadas, especialmente em regiões onde a presença de agências bancárias tradicionais é menor ou onde há concentração de atividades econômicas específicas, como agricultura familiar, pequeno comércio e serviços. A capilaridade das cooperativas em municípios do interior, somada à proximidade com o associado, cria vantagem competitiva em nichos que os grandes bancos atendem de forma padronizada ou simplesmente não atendem.
A participação de 5,26% indica o peso atual desse segmento no mercado de crédito das famílias, mas o dado isolado não revela a dinâmica de crescimento. O ganho ou a perda de espaço dessa fatia ao longo do tempo, em janelas comparativas de um, três ou cinco anos, é o que mostra a real penetração do modelo frente aos grandes bancos. Quando a fatia sobe, sinaliza que o cooperativismo está conquistando novos associados ou expandindo o volume médio de crédito por pessoa. Quando estagna ou recua, pode indicar competição mais agressiva dos bancos digitais ou mudanças regulatórias que afetam a operação das cooperativas.
O efeito no bolso do associado, contudo, permanece condicionado ao perfil de cada tomador e à modalidade de crédito buscada. Cooperativas tendem a ter vantagem em crédito consignado, financiamento de veículos e crédito rural, modalidades em que a relação de longo prazo com o associado reduz o risco de inadimplência e permite spreads menores. Em crédito rotativo ou cheque especial, a vantagem pode ser menor, já que o custo de captação e a estrutura de risco não diferem tanto entre cooperativas e bancos.
A leitura da participação também sinaliza como o cooperativismo se posiciona no acesso ao crédito para segmentos historicamente mal atendidos pelo sistema bancário tradicional. Pequenos produtores rurais, microempreendedores individuais e trabalhadores de categorias específicas encontram nas cooperativas não apenas crédito, mas também educação financeira e serviços de correspondente bancário que facilitam o dia a dia. Essa função social do modelo cooperativo, embora não apareça diretamente no percentual de 5,26%, está embutida na forma como esse crédito é distribuído geograficamente e entre perfis de renda.
Para o investidor ou analista de mercado, o dado serve como termômetro da diversificação do sistema financeiro brasileiro. Um SFN com participação relevante de cooperativas tende a ser mais resiliente a choques sistêmicos, já que a lógica mutualista não depende de lucro trimestral nem de apetite por risco de acionistas. Para o tomador de crédito, a existência de alternativa cooperativa pressiona os bancos a oferecer condições melhores, mesmo que ele nunca se associe a uma cooperativa. A competição indireta beneficia o mercado como um todo.