Dispersão de taxas no crédito ao varejo alcança 39,26 pontos percentuais
A fotografia do mercado de crédito ao varejo brasileiro revela uma dispersão acentuada entre as ofertas disponíveis, com o custo do dinheiro
A fotografia do mercado de crédito ao varejo brasileiro revela uma dispersão acentuada entre as ofertas disponíveis, com o custo do dinheiro variando drasticamente conforme a modalidade e a instituição financeira. Em 07/05/2026, a varredura do Banco Central cobriu 8 modalidades distintas, nas quais a Selic de 14,50% ao ano atua como referência de captação para o sistema bancário, e não como piso para o tomador final.
Cada modalidade compõe um mercado isolado, com riscos, garantias e custos administrativos próprios. O ranking POS-N, que organiza as taxas da menor para a maior, é uma medida abstrata que preserva o anonimato das instituições. POS-1 representa a menor taxa praticada entre os bancos consultados naquela modalidade, POS-2 a segunda menor, e assim por diante. É comum que diferentes bancos ocupem a primeira posição em produtos distintos, o que reforça que a competitividade é setorial e não uniforme. Um banco pode oferecer a taxa mais baixa em crédito consignado e, ao mesmo tempo, cobrar uma das mais altas em cheque especial, dependendo de sua estratégia comercial e perfil de clientes.
Os extremos do mercado são marcados por distâncias significativas. A menor taxa POS-1 do dia, de 0,00% ao ano, foi registrada na modalidade de crédito pessoal não consignado, enquanto a ponta mais cara do varejo, observada no cheque especial, atingiu 29,48% ao ano. A diferença entre esses dois pontos chega a 29,48 pontos percentuais. Essa amplitude reflete não apenas a diversidade de produtos, mas também a natureza do risco embutido em cada operação. Crédito pessoal não consignado com taxa zero costuma estar atrelado a promoções pontuais ou a clientes com histórico excepcional de relacionamento, enquanto o cheque especial carrega o maior risco de inadimplência do sistema, por ser crédito rotativo sem garantia e sem análise prévia de capacidade de pagamento.
Dentro de uma mesma modalidade, a disparidade também chama atenção. No caso do cheque especial, a maior dispersão interna entre as três menores taxas publicadas foi de 39,26 pontos percentuais. Esse indicador reflete a heterogeneidade das estratégias comerciais das instituições, que precificam o risco e a fidelidade do cliente de formas distintas. A dispersão elevada dentro de um único produto sugere que o mercado não opera em concorrência perfeita. Bancos com maior base de clientes cativos ou com menor pressão por volume podem manter taxas mais altas sem perder participação, enquanto instituições menores ou digitais costumam usar taxas mais baixas como ferramenta de atração.
A margem dos operadores sobre a Selic também varia conforme o produto. A menor taxa de entrada do mercado apresentou um spread de menos 14,50 pontos percentuais em relação à Selic, o que significa que a instituição estava oferecendo crédito abaixo do custo de captação de referência, provavelmente subsidiando a operação com outras receitas ou usando o produto como isca comercial. Na outra ponta, a modalidade com o custo mais elevado exibiu um spread de 14,98 pontos percentuais sobre a taxa básica, refletindo o prêmio de risco e os custos operacionais de produtos sem garantia e com alta inadimplência histórica.
É importante notar que uma dispersão elevada não implica necessariamente ineficiência ou abuso, mas sim a complexidade de precificar crédito em um sistema diverso. O Brasil opera com um mercado segmentado, onde cada modalidade responde a dinâmicas próprias de oferta, demanda, regulação e risco. O cruzamento desses dados busca elucidar como o custo do dinheiro se distribui na prática, longe das médias generalistas que costumam ocultar a realidade do tomador de crédito. Para o consumidor, a lição é clara: a taxa média do sistema diz pouco sobre o que ele vai pagar de fato. A diferença entre a melhor e a pior oferta pode representar milhares de reais ao longo de um financiamento, e a escolha da instituição e da modalidade é tão relevante quanto a decisão de tomar ou não o crédito.