PIX movimenta 91 centavos para cada real que passa pela TED
A substituição estrutural do sistema de transferências segue em ritmo consistente, com ganho de 8,63% apenas no último mês.
No mês de maio de 2026, o PIX movimentou R$ 3,5 trilhões contra R$ 3,8 trilhões da TED, uma razão de 0,91 reais transacionados via PIX para cada real via TED. O indicador captura a trajetória de substituição de um trilho de pagamento por outro, movimento que começou quando o PIX entrou em operação em novembro de 2020 e vem se consolidando desde então.
Para entender por que essa razão importa, vale situar o que cada sistema faz e como eles se diferenciam na prática. A TED, transferência eletrônica disponível, é o trilho tradicional de transferências interbancárias operado pelo Banco Central há décadas. Funciona em dias úteis, dentro de janelas horárias específicas, e cobra tarifa na maioria dos bancos. O PIX é o sistema de pagamentos instantâneos lançado em novembro de 2020, também operado pelo BC, que permite transferências em tempo real a qualquer hora do dia, incluindo finais de semana e feriados, sem custo para pessoas físicas na maior parte das instituições. Ambos coexistem, mas atendem perfis de uso cada vez mais distintos. A razão mede qual deles está movimentando mais valor em um mês típico. Quando a razão sobe, o PIX está ganhando espaço. Quando cai, a TED está recuperando participação.
O movimento recente aponta para consolidação do PIX como trilho dominante em valor transacionado. Nos últimos 30 dias encerrados em maio de 2026, a razão avançou 8,63%. Em 90 dias, o ganho foi de 9,74%, e em 180 dias, de 4,98%. A aceleração nos últimos meses, especialmente no período mais curto, sinaliza que a substituição não está desacelerando. Pelo contrário, o ritmo de crescimento da participação do PIX se intensificou no trimestre mais recente, sugerindo que a migração de usuários e de volume financeiro para o novo trilho continua ativa.
A TED, por sua vez, tende a ficar restrita a nichos específicos. Operações com valores muito altos, acima dos limites diários impostos por alguns bancos ao PIX, ainda preferem a TED. Liquidação interbancária de grande porte, operações estruturadas entre instituições financeiras, e casos em que a regulação ou o contrato exigem esse trilho também mantêm a TED relevante. Empresas de grande porte, especialmente aquelas com tesourarias centralizadas, costumam usar TED para movimentações de dezenas ou centenas de milhões de reais em uma única operação, algo que o PIX, embora tecnicamente capaz, ainda não absorveu por completo por questões de limite operacional e cultura corporativa.
Há ressalvas importantes sobre o que esses números realmente dizem. A razão compara valor agregado mensal, não volume de operações. Se o valor médio de uma transferência PIX aumentar enquanto o da TED cai, a razão sobe mesmo que o número de operações em cada trilho permaneça estável. Isso pode ocorrer, por exemplo, se pequenas e médias empresas migrarem pagamentos de fornecedores do TED para o PIX, elevando o ticket médio do PIX sem necessariamente aumentar o número de transações. Além disso, valores agregados sofrem sazonalidade. Décimo terceiro salário, datas de pagamento de tributos e ciclos de folha de pagamento amplificam ou reduzem a razão em períodos específicos. Maio pode não ser representativo de junho, especialmente se houver concentração de pagamentos de impostos ou antecipação de receitas em um dos meses.
A leitura de consolidação se inverte em cenários específicos. Se a razão recuar de forma sustentada por dois trimestres seguidos, o sinal muda. Mudança regulatória que reonere o PIX, como a cobrança de tarifas para pessoas físicas acima de determinado volume mensal, ou que desonere a TED, alteraria a trajetória. Reversão no valor médio por operação, caso ocorra por migração de grandes pagadores de volta para a TED, modificaria o mix entre os dois trilhos independentemente de substituição real de clientes. Nenhum desses cenários está no horizonte imediato, mas são variáveis que o Banco Central e o mercado monitoram.
O histórico desde 2020 mostra que a TED perdeu participação contínua desde a entrada do PIX. A razão atual de 0,91 reflete cinco anos e meio dessa dinâmica. Quando o PIX foi lançado, a razão era próxima de zero. Em 2021, já estava em torno de 0,30. Em 2023, ultrapassou 0,60. Agora, em maio de 2026, está a poucos pontos percentuais de igualar o valor transacionado pela TED. Se o ritmo dos últimos 90 dias se mantiver, a razão deve ultrapassar 1,00 ainda em 2026, marcando o momento em que o PIX passa a movimentar mais valor absoluto que a TED em base mensal.
Os dados de maio de 2026 sugerem que o padrão segue consolidado, sem sinais de reversão no horizonte próximo. A substituição estrutural do sistema de transferências brasileiro está em curso, e a razão de 0,91 é mais um ponto nessa trajetória.