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Inadimplência no cartão de crédito atinge 8,64%, mais de 10 vezes a taxa do crédito habitacional

A inadimplência das famílias brasileiras varia drasticamente conforme a modalidade de crédito contratada.

A inadimplência das famílias brasileiras varia drasticamente conforme a modalidade de crédito contratada. Com base no Sistema de Informações de Crédito do Banco Central em dezembro de 2024, o cartão de crédito lidera o ranking de atrasos superiores a 15 dias com taxa de 8,64%, enquanto o crédito habitacional registra o menor patamar, em 0,18%. A diferença de 8,46 pontos percentuais entre as pontas do ranking reflete não apenas o perfil do tomador, mas principalmente a estrutura contratual de cada produto.

O indicador de inadimplência total das famílias atingiu 2,69% no período, com variação de 0,06 ponto percentual em relação à leitura anterior. Este dado, que reflete um perfil estrutural com defasagem de aproximadamente 12 meses, mostra estabilidade relativa no agregado, mas esconde disparidades significativas quando observado por modalidade. O SCR mede a relação entre o saldo vencido há mais de 15 dias e a carteira total de crédito, permitindo observar como o risco se distribui entre produtos com naturezas contratuais distintas.

O ranking completo de inadimplência é composto ainda pelo empréstimo não consignado, com 3,71%, seguido pelo rural e agroindustrial, em 2,21%, e pelo financiamento de veículos, em 1,59%. O consignado, modalidade com desconto direto em folha de pagamento, apresenta 0,83%. A hierarquia não é aleatória. Ela reflete a influência direta das garantias reais e da forma de liquidação no risco de crédito.

O cartão de crédito, por sua natureza de uso imediato e rotativo, apresenta risco estruturalmente superior a produtos como o habitacional, que conta com o imóvel como garantia real, ou o consignado, que reduz a incerteza de pagamento ao descontar a parcela diretamente do salário ou benefício previdenciário. No cartão, o tomador pode usar o limite disponível sem consulta prévia ao banco, e o pagamento mínimo permite que a dívida role indefinidamente, acumulando juros rotativos que chegam a superar 400% ao ano em algumas instituições. Essa combinação de facilidade de uso, ausência de garantia e custo elevado do crédito rotativo explica por que a inadimplência nessa modalidade é persistentemente alta.

No extremo oposto, o crédito habitacional tem taxa de inadimplência de 0,18% porque o imóvel financiado serve como garantia. Em caso de inadimplência prolongada, o banco pode executar a hipoteca e retomar o bem, o que reduz drasticamente o incentivo ao calote. Além disso, o financiamento habitacional costuma ser contratado por famílias com renda comprovada e capacidade de pagamento verificada em análise de crédito mais rigorosa, o que também contribui para o baixo índice de atraso.

O consignado, com 0,83%, fica próximo do habitacional porque o desconto em folha elimina o risco de esquecimento ou falta de liquidez pontual. O tomador não precisa lembrar de pagar, a parcela é debitada automaticamente. Já o empréstimo não consignado, com 3,71%, carrega risco maior porque depende da iniciativa do tomador e da disponibilidade de recursos no momento do vencimento, sem garantia real que proteja o banco.

Essa hierarquia não sugere causalidade direta entre o comportamento do tomador e a modalidade escolhida, mas evidencia o reflexo das condições contratuais de cada linha. O perfil por modalidade auxilia na compreensão de onde se concentra o estresse do crédito para pessoas físicas, sem que isso implique em julgamento moral sobre o endividamento. Para o investidor que analisa bancos, a composição da carteira por modalidade é informação relevante, já que instituições com exposição maior a cartão de crédito tendem a provisionar mais para perdas esperadas. Para o tomador, a hierarquia serve como lembrete de que modalidades com taxas de inadimplência mais altas costumam cobrar juros mais elevados, justamente para compensar o risco maior.

Fonte. SCR_INAD_PF_TOTAL · SCR_INAD_PF_CARTAO_CREDITO · SCR_INAD_PF_NAO_CONSIGNADO Reportar erro