Pular para o conteúdo
Atividade com IA

Cartão rotativo mantém atraso 57% acima da média de crédito PF

O cartão de crédito rotativo segue como a modalidade mais cara e mais tensa do mercado de crédito brasileiro.

O cartão de crédito rotativo segue como a modalidade mais cara e mais tensa do mercado de crédito brasileiro. Em março de 2026, a taxa média estava em 26,61% ao mês, patamar que coloca essa linha entre as mais onerosas do sistema financeiro nacional. O atraso superior a 90 dias nesta modalidade chegou a 4,33% do saldo, enquanto o atraso agregado de toda a carteira de pessoa física ficou em 2,75%. A diferença de 1,58 ponto percentual revela que o cartão rotativo segue rodando com inadimplência estruturalmente mais elevada que a média do crédito PF.

O cartão rotativo existe para cobrir saques e compras sem parcelamento automático. Diferente do crédito parcelado, que fixa prazo e valor desde o início, o rotativo funciona como uma linha de crédito que o cliente usa conforme precisa e paga quando consegue. Essa flexibilidade tem um custo altíssimo. Os juros tão elevados refletem o risco concentrado: quem usa crédito rotativo costuma estar em situação de fluxo de caixa apertado, o que aumenta a probabilidade de atraso. Sem garantia colateral e com comportamento de uso emergencial, o banco embute no preço toda a inadimplência histórica da modalidade. A taxa de 26,61% ao mês é a média do sistema, mas há instituições que cobram ainda mais, especialmente em cartões de bandeira própria de varejo.

A razão entre o atraso do cartão rotativo e o atraso agregado PF é de 1,57 vez. Isso significa que a modalidade é estruturalmente mais inadimplente que a média, não por acaso, mas pela composição de renda e padrão de uso. Famílias que recorrem ao cartão rotativo tendem a estar em faixa de renda mais baixa e com menor acesso a outras linhas de crédito. O padrão de 1,5 a 2 vezes o atraso agregado é histórico nesta modalidade. Não é anomalia, é característica. O spread de 1,58 ponto percentual entre o atraso do cartão e o atraso total PF confirma essa distância estrutural.

Mas o movimento recente aponta para pressão crescente. Nos últimos 12 meses, o atraso do cartão rotativo subiu 1,05 ponto percentual, enquanto o atraso agregado PF subiu apenas 0,50 ponto percentual. O cartão está piorando mais que o dobro da velocidade do resto da carteira. Essa divergência de velocidades sugere que o stress está concentrado em famílias que usam crédito rotativo, não distribuído uniformemente. A aceleração do atraso no cartão enquanto o agregado sobe em ritmo mais lento indica que o aperto orçamentário está atingindo primeiro, e com mais força, quem já estava no limite.

O cartão rotativo funciona historicamente como termômetro antecedente do stress doméstico. Quando o atraso nesta modalidade aperta, tende a apertar no resto da carteira PF em um a dois trimestres depois. A lógica é simples: quem está atrasando no cartão rotativo está no limite do orçamento. Quando esse limite se rompe, o atraso migra para outras modalidades, como crédito consignado, financiamento de veículo e crédito pessoal. O nível atual de 4,33% de atraso no cartão rotativo situa-se no percentil 98 da série de cinco anos, ou seja, entre os maiores registros do período. A trajetória de alta nos últimos 12 meses, combinada com a divergência em relação ao agregado, aponta para pressão concentrada que pode se alastrar se as condições de renda das famílias não melhorarem nos próximos trimestres.

A taxa de juros do cartão rotativo caiu 1,98 ponto percentual nos últimos 12 meses, movimento que reflete tanto a queda da Selic quanto a tentativa dos bancos de reduzir o custo da modalidade mais criticada do sistema. Mesmo com essa queda, a taxa de 26,61% ao mês permanece proibitiva para a maior parte das famílias. O recuo da taxa não impediu o aumento do atraso, o que sugere que o problema está mais na capacidade de pagamento das famílias do que no custo nominal do crédito. Quando a renda disponível cai ou o desemprego sobe, mesmo juros menores não evitam a inadimplência.

Para o investidor que acompanha o setor bancário, o atraso do cartão rotativo é indicador de qualidade da carteira de crédito. Bancos com exposição elevada a essa modalidade tendem a provisionar mais e a reportar margens menores quando o atraso sobe. Para o tomador de crédito, o recado é direto: cartão rotativo é linha de emergência, não solução de fluxo de caixa recorrente. O custo é alto demais para ser sustentável por mais de um ou dois meses.

Fonte. BCB_TAXA_JUROS_CARTAO_ROTATIVO_PF · BCB_ATRASO_CARTAO_ROTATIVO_PF · BCB_ATRASO_TOTAL_PF Reportar erro