Confiança setorial divide empresários entre otimismo no comércio e cautela na indústria
A confiança setorial brasileira apresenta um cenário dividido ao final do ciclo de sondagens de maio de 2026.
A confiança setorial brasileira apresenta um cenário dividido ao final do ciclo de sondagens de maio de 2026. Das 6 métricas monitoradas pelo Elucidados, 3 componentes indicam otimismo, 2 permanecem em terreno pessimista e 1 se mantém em zona neutra. O resultado reflete a percepção de empresários e consumidores sobre o ambiente de negócios, servindo como indicador de tendência para a atividade econômica real nos próximos 1 a 3 meses.
As sondagens mensais, realizadas por entidades como CNI, CNC, FGV e Fecomercio SP, convertem questionários qualitativos em índices quantitativos. Cada série possui uma norma de neutralidade específica: 50 pontos para o ICEI da indústria e 100 pontos para os demais indicadores. Quando o índice supera sua respectiva norma, observa-se predominância de avaliação positiva. Abaixo dela, a avaliação tende a ser negativa. A norma funciona como linha divisória entre expectativa de expansão e expectativa de contração da atividade no setor.
No setor industrial, o ICEI geral marcou 47,20 pontos em maio de 2026, mantendo-se abaixo da norma de 50 pontos. O componente de expectativas da indústria, com 49,30 pontos, também se posiciona em zona neutra, refletindo cautela dos empresários do setor. Historicamente, ambos os indicadores de confiança industrial situam-se no P10 da janela de 5 anos, o que significa que apenas 10% das observações desde maio de 2021 ficaram abaixo do nível atual. A variação negativa de 1,70 ponto percentual no ICEI geral e de 2,00 pontos percentuais no ICEI expectativas, ambas em 12 meses, reforçam a leitura de um setor que perdeu fôlego ao longo do último ano. O percentil baixo sinaliza um ritmo de atividade contido para a indústria, com empresários avaliando o ambiente de negócios como desfavorável em comparação com a maior parte do histórico recente.
Por outro lado, o comércio e o consumidor demonstram maior resiliência. O ICEC, que mede a confiança do comércio, atingiu 102,11 pontos em abril de 2026, acima da norma de 100 pontos, com variação positiva de 2,91 pontos percentuais em 12 meses. O IEEC, focado em expectativas comerciais, alcançou 128,25 pontos no mesmo período, com alta de 0,69 ponto percentual em 12 meses. Ambos os indicadores situam-se no P13 e P12 da janela de 5 anos, respectivamente, o que indica posição ligeiramente abaixo da mediana histórica, mas ainda em terreno de otimismo. O índice de confiança do consumidor da Fecomercio SP, com 120,55 pontos em maio de 2026, destaca-se com uma variação positiva de 8,82 pontos percentuais nos últimos 12 meses, figurando como o movimento mais expressivo do período entre os 6 componentes monitorados. O percentil de 48% coloca o indicador próximo da mediana histórica, sinalizando que o consumidor paulista avalia o momento presente de forma equilibrada, sem euforia, mas também sem pessimismo acentuado.
Na construção civil, o índice da FGV registrou 92,60 pontos em maio de 2026, abaixo da norma de 100 pontos. Este nível coloca o setor em uma posição de predominância de avaliação negativa, com o indicador situando-se no P15 da janela de 5 anos. A variação negativa de 0,90 ponto percentual em 12 meses reforça a leitura de um setor que ainda enfrenta dificuldades para retomar o otimismo. O percentil baixo indica que a confiança na construção está entre os patamares mais fracos observados desde maio de 2021, refletindo desafios estruturais do setor, como custo de insumos, acesso a crédito e ritmo de lançamentos imobiliários.
Em conjunto, a média das variações em 12 meses dos 6 componentes aponta para uma alta de 1,30 ponto percentual. Embora a confiança setorial não seja determinística, o alinhamento entre a melhora nas expectativas do comércio e a resiliência do consumidor sinaliza tendência de estabilidade ou leve expansão para o consumo das famílias nos próximos meses. A força do varejo e do consumidor contrasta com a fraqueza da indústria e da construção, sugerindo que a economia brasileira segue em ritmo desigual entre setores. O comércio se beneficia de renda disponível e crédito ainda acessível, enquanto a indústria enfrenta custos elevados, juros altos e demanda externa fraca. A construção, por sua vez, sofre com o encarecimento do financiamento imobiliário e a desaceleração de obras públicas. O cenário misto indica que a atividade econômica deve seguir em marcha lenta, com o consumo sustentando parte do crescimento, mas sem tração suficiente da indústria e da construção para acelerar o PIB de forma generalizada.