Reservatórios do Norte e Nordeste estão cheios enquanto Sul opera com metade da capacidade
O Sistema Interligado Nacional apresenta em 19/05/2026 uma configuração de armazenamento profundamente desigual entre regiões.
O Sistema Interligado Nacional apresenta em 19/05/2026 uma configuração de armazenamento profundamente desigual entre regiões. O Nordeste está em 94,65% da capacidade, o Norte em 96,74%, o Sudeste/Centro-Oeste em 65,73% e o Sul em 50,37%. A disparidade entre o subsistema mais cheio e o mais crítico chega a 46,37 pontos percentuais, refletindo regimes de chuva e características hidrográficas distintas em cada bacia.
Essa heterogeneidade é estrutural no desenho do sistema elétrico brasileiro. O país não opera um único reservatório gigante, mas quatro subsistemas com dinâmicas próprias de afluência, evaporação e demanda. Quando um deles está baixo, a operação do sistema todo fica mais cara porque o Operador Nacional do Sistema precisa acionar usinas termelétricas, que consomem combustível fóssil ou biomassa e têm custo variável elevado. Essa diferença de custo operacional eventualmente pressiona a bandeira tarifária, o mecanismo que repassa ao consumidor final o custo adicional de geração, e por extensão afeta o IPCA energia, subgrupo que responde por cerca de 4% do índice cheio de inflação.
O Sudeste/Centro-Oeste, que concentra aproximadamente 70% da capacidade total de armazenamento do SIN e abriga os maiores reservatórios do país (Furnas, Emborcação, Três Marias, Serra da Mesa), está em patamar médio-alto. O nível de 65,73% oferece margem operacional confortável para os próximos meses, mas o regime de chuvas recente mostra sinais de moderação. O subsistema acumulou apenas 32,5 milímetros de precipitação nos últimos 30 dias até 19/05/2026, segundo dados do Open-Meteo, volume bem abaixo da média histórica para o período de transição entre estação chuvosa e seca. Se o regime seco persistir nas próximas semanas, a folga operacional tende a diminuir, exigindo maior acionamento térmico ou importação de energia dos subsistemas vizinhos.
O Nordeste, em contraste, acumulou 260,0 milímetros de chuva no mesmo período de 30 dias. O nível elevado do reservatório, em 94,65%, está em sintonia direta com esse regime de precipitação abundante. A região historicamente sofre com secas prolongadas e reservatórios críticos, mas o ciclo atual inverteu o padrão. Sobra de Itaparica, Três Marias do Nordeste (Sobradinho) e outros reservatórios da bacia do São Francisco permite ao subsistema exportar energia para o Sudeste via linhas de transmissão, aliviando a pressão sobre a geração térmica nacional.
O Norte, por sua vez, recebeu 495,0 milímetros em 30 dias e opera praticamente no máximo operacional, com 96,74% de armazenamento. A região abriga as hidrelétricas do rio Madeira (Santo Antônio, Jirau) e Belo Monte, no Xingu, usinas de grande porte que dependem de afluências volumosas. O regime de chuvas intenso mantém os reservatórios cheios e a geração hidrelétrica no teto, reduzindo a necessidade de despacho térmico no sistema como um todo. A capacidade de exportação do Norte para o Sudeste via linhões de transmissão é limitada pela infraestrutura existente, mas ainda assim relevante para o equilíbrio operacional.
O Sul é o ponto de atenção imediata. Apesar de ter acumulado 170,3 milímetros de chuva nos últimos 30 dias, volume moderado e acima da média de algumas regiões do país, o nível está em 50,37%, abaixo do limiar de 51% que historicamente aciona operação mais cara e sinaliza risco de racionamento em cenários extremos. O subsistema é menor em capacidade absoluta de armazenamento comparado ao Sudeste, mas relevante em períodos secos porque suas hidrelétricas (Itaipu binacional, usinas do rio Iguaçu, Uruguai e Jacuí) contribuem para a geração de base. Quando o Sul está baixo, o sistema perde flexibilidade e precisa compensar com térmicas ou importação de energia da Argentina via interligação internacional. A chuva de 170,3 milímetros não foi suficiente para recuperar o armazenamento ao patamar confortável acima de 60%, sugerindo que o inverno seco típico da região pode agravar o quadro se não houver precipitações adicionais nas próximas semanas.
A leitura conjunta é de um sistema com regiões em situações opostas. Norte e Nordeste têm folga operacional ampla, enquanto Sudeste está em zona de conforto com tendência de aperto se a seca avançar, e Sul em zona de atenção com risco de deterioração. Essa configuração tende a persistir enquanto os regimes de chuva regionais não convergirem. O Operador Nacional do Sistema monitora diariamente os níveis e ajusta o despacho de geração para minimizar custo, mas a assimetria regional limita as opções de manobra. Quando um subsistema está crítico e os demais não conseguem exportar energia suficiente por restrições de transmissão, o acionamento térmico se torna inevitável, pressionando a bandeira tarifária e, em última instância, a conta de luz do consumidor final.