Soja e milho recuam 3% enquanto café despenca 23% em janela de valorização do real
Entre 19/01/2026 e 08/05/2026, o real acumulou valorização de 8,67% frente ao dólar, movimento que coincidiu com recuos generalizados nos preços das
Entre 19/01/2026 e 08/05/2026, o real acumulou valorização de 8,67% frente ao dólar, movimento que coincidiu com recuos generalizados nos preços das principais commodities agrícolas monitoradas pelo CEPEA. A intensidade das quedas, porém, variou drasticamente entre as culturas, com soja e milho cedendo cerca de 3% enquanto o café arábica despencou 23,54% no mesmo período de 75 dias úteis.
A correlação entre cada commodity e a taxa de câmbio revela dinâmicas distintas. A soja Paranaguá apresentou correlação de 0,59 com a PTAX, o que significa que em aproximadamente seis de cada dez pregões o preço da oleaginosa se moveu na mesma direção do dólar. Trata-se da relação linear mais forte entre as três culturas analisadas, sugerindo que o câmbio teve peso relevante na formação de preço da soja ao longo da janela. A variação acumulada da soja ficou em 3,09% negativos, recuo moderado se comparado ao movimento cambial de quase 9%.
O milho ESALQ recuou 3,14% entre 19/01/2026 e 08/05/2026, mas sua correlação com o câmbio foi de apenas 0,24, indicando que a relação linear com as variações diárias do real foi fraca. Na prática, isso significa que outros fatores pressionaram a cotação do cereal além do movimento da moeda. Entre esses fatores estão a dinâmica de oferta doméstica, a sazonalidade da segunda safra e a competição com milho argentino e americano no mercado internacional. A correlação baixa não elimina a influência do câmbio, mas mostra que ela foi diluída por variáveis específicas do mercado de grãos Soja e milho mantêm correlação positiva com o câmbio enquanto café descola.
O café arábica registrou a queda mais expressiva entre os itens monitorados, com recuo de 23,54% na mesma janela de 75 dias úteis. A correlação de 0,17 com a PTAX indica descolamento relevante, mostrando que a trajetória de baixa do café ocorreu de forma independente às oscilações da taxa de câmbio no período. O movimento reflete fatores estruturais do mercado cafeeiro: expectativa de safra robusta no Brasil, pressão de estoques elevados e ajuste de preços após o ciclo de alta dos anos anteriores. O câmbio favorável ao exportador brasileiro não foi suficiente para sustentar as cotações diante do excesso de oferta.
A correlação de Pearson mede apenas a relação linear entre variações diárias e não implica causalidade. Um coeficiente de 0,59, como o da soja, indica que 59% da variância dos movimentos diários da commodity pode ser explicada pela variância do câmbio em modelo linear simples, mas não diz se o câmbio causou a queda ou se ambos responderam a um terceiro fator comum, como o apetite global por risco. A robustez das correlações tende a crescer conforme o histórico de dados aumenta ao longo do tempo, e a janela de 75 dias úteis utilizada nesta leitura é suficiente para capturar tendências de curto prazo, mas insuficiente para afirmações sobre padrões estruturais de longo prazo.
Para o produtor rural, a valorização do real tem efeito ambíguo. Por um lado, reduz a receita em reais de quem vende no mercado internacional, já que cada dólar recebido vale menos quando convertido. Por outro, barateia insumos importados como fertilizantes e defensivos, que representam parcela significativa do custo de produção. A magnitude do impacto líquido depende da exposição de cada cultura ao mercado externo e da estrutura de custos de cada lavoura. Soja, altamente exportável, tende a sentir mais o câmbio do que culturas com mercado doméstico forte.
Os dados não permitem projetar se o movimento de recuo das commodities persistirá ou se a correlação com o câmbio se intensificará nos próximos meses. O histórico mostra que a sensibilidade dos preços agrícolas ao dólar costuma ser influenciada por fatores sazonais e pela dinâmica de exportação, que operam em paralelo ao cenário macroeconômico. A safra de verão, colhida entre janeiro e maio, tende a pressionar preços pela oferta concentrada, enquanto a segunda safra de milho, colhida entre junho e agosto, pode alterar a correlação observada na janela analisada.