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Reservatórios do Sul caem para o nível mais crítico enquanto Norte transborda

Os níveis de energia armazenada no Sistema Interligado Nacional em 08/06/2026 revelam disparidade acentuada entre os quatro subsistemas.

Os níveis de energia armazenada no Sistema Interligado Nacional em 08/06/2026 revelam disparidade acentuada entre os quatro subsistemas. O Sudeste/Centro-Oeste, responsável por aproximadamente 70% da capacidade nacional, opera em 65,71%. O Nordeste mantém 92,43%. O Norte está em 97,87%, praticamente no máximo. O Sul, porém, caiu para 58,47%, o patamar mais baixo entre todas as regiões.

A diferença entre o subsistema mais cheio e o mais crítico é de 39,40 pontos percentuais. Essa disparidade reflete bacias hidrográficas distintas e regimes de chuva profundamente desiguais. O Norte e o Nordeste, que alimentam reservatórios de porte menor mas bem abastecidos, operam em conforto hídrico. O Sudeste/Centro-Oeste e o Sul, onde estão os maiores reservatórios do país, enfrentam condições mais secas.

A energia armazenada, ou EAR (sigla para Energia Armazenada nos Reservatórios), é o indicador que mede quanto de água está disponível nas hidrelétricas do país. Quando o EAR está alto, o sistema opera com folga, despachando energia barata das usinas a fio d'água e mantendo as termelétricas desligadas. Quando o EAR cai abaixo de certos patamares, o Operador Nacional do Sistema precisa acionar térmicas para complementar a geração, o que encarece a energia e pode pressionar a bandeira tarifária. O ONS publica os EARs diários no dia útil seguinte à medição, permitindo acompanhamento em tempo real da situação hídrica.

Gráfico
Energia armazenada do Sudeste/Centro-Oeste (% do máximo), últimos 365 dias
67,2058,1449,0840,03 65,71 08/11 17/01 29/03 08/06
Fonte. ONS

Os últimos 30 dias evidenciam esse padrão climático heterogêneo. O Nordeste acumulou 239,6 milímetros de chuva, enquanto o Norte registrou 350,5 milímetros. Em paralelo, o Sudeste/Centro-Oeste recebeu apenas 34,1 milímetros, e o Sul 106,8 milímetros. Os subsistemas que receberam mais água mantêm reservatórios cheios. Os que enfrentam deficit hídrico operam em níveis mais baixos, em sintonia com o regime de chuva recente.

Essa heterogeneidade não é acidental. O Brasil opera quatro subsistemas interligados, mas cada um responde a bacias hidrográficas distintas. O Norte depende da bacia Amazônica, com regime de chuvas tropical e alta pluviosidade o ano todo. O Nordeste combina rios do São Francisco e bacias menores do semiárido, com padrão de chuva concentrado em poucos meses. O Sudeste/Centro-Oeste reúne as bacias do Paraná, Grande e Paranaíba, com reservatórios de grande porte que dependem de chuvas de verão. O Sul opera com rios menores e regime subtropical, mais uniforme ao longo do ano, mas vulnerável a estiagens prolongadas.

Gráfico
Energia armazenada do Sul (% do máximo), últimos 365 dias
94,5272,7050,8829,06 58,47 08/11 17/01 29/03 08/06
Fonte. ONS

O subsistema Sul merece atenção particular. Com 58,47% de sua capacidade, opera na zona em que a operação começa a depender mais de usinas termelétricas para complementar a geração. Termelétricas são mais caras de operar do que hidrelétricas, porque queimam gás natural ou óleo diesel, e quando acionadas em volume, podem pressionar a bandeira tarifária e eventualmente o IPCA de energia. O Sudeste/Centro-Oeste, apesar de estar em patamar médio, também se afasta do conforto hídrico típico de períodos anteriores.

A bandeira tarifária é o mecanismo que repassa ao consumidor o custo adicional de geração térmica. Quando o sistema opera com folga hídrica, a bandeira fica verde, sem custo extra. Quando o despacho térmico aumenta, a bandeira passa para amarela ou vermelha, adicionando centavos por quilowatt-hora na conta de luz. O acionamento de térmicas no Sul, portanto, tem impacto direto no bolso do consumidor da região, e pode contaminar a média nacional se o despacho se intensificar.

Gráfico
Energia armazenada do Nordeste (% do máximo), últimos 365 dias
96,5379,0361,5344,02 92,43 08/11 17/01 29/03 08/06
Fonte. ONS

O cenário atual não é crítico em escala nacional. O Nordeste e o Norte oferecem margem confortável. Mas a concentração de risco no Sul e a moderação no Sudeste/Centro-Oeste mostram que a heterogeneidade regional é o fator dominante na operação do sistema. Semanas com chuva concentrada em regiões já cheias e deficit em regiões críticas amplificam essa disparidade, como ocorre agora. O padrão tende a persistir enquanto o regime climático não mudar de direção.

Para o investidor que acompanha o setor elétrico, a leitura é clara. Empresas de geração térmica no Sul tendem a ser mais despachadas, o que melhora receita operacional no curto prazo. Distribuidoras da região enfrentam pressão de custo, que pode ou não ser repassada integralmente ao consumidor, dependendo do reajuste tarifário. E o risco de racionamento, embora ainda distante, deixa de ser zero se a estiagem no Sul se prolongar por mais dois ou três meses sem recomposição dos reservatórios.

Fonte. ONS · EAR Diário por Subsistema (dados.ons.org.br) Reportar erro