Reservatórios do Norte e Nordeste transbordam enquanto Sul opera em nível crítico
Disparidade de 39,58 pontos percentuais entre subsistemas reflete padrão de chuvas desigual.
O Sistema Interligado Nacional apresenta em 15 de junho de 2026 um quadro de forte heterogeneidade entre seus quatro subsistemas. O Nordeste está em 91,38% de sua capacidade máxima, o Norte em 96,64%, o Sudeste/Centro-Oeste em 65,80% e o Sul em 57,06%. A diferença entre o subsistema mais abastecido e o mais crítico chega a 39,58 pontos percentuais, um spread que reflete não apenas a geografia das bacias hidrográficas, mas também o regime de precipitação recente em cada região.
O Sudeste/Centro-Oeste, que concentra aproximadamente 70% da capacidade total do SIN, opera em nível confortável mas não abundante. Este subsistema é o mais relevante para a operação do sistema nacional porque sua disponibilidade de água define em grande medida se será necessário acionar usinas termelétricas para complementar a geração. Quando os reservatórios do Sudeste caem abaixo de 50%, o Operador Nacional do Sistema costuma despachar térmicas movidas a gás natural e carvão, que custam entre três e cinco vezes mais por megawatt-hora do que a geração hidrelétrica. Esse custo adicional se reflete na bandeira tarifária, o mecanismo que repassa ao consumidor final o custo variável da geração. Com 65,80% de armazenamento, o Sudeste está acima do limiar crítico, mas sem margem de folga caso a estiagem se prolongue por mais de dois meses.
O Sul, por sua vez, está no patamar mais pressionado dos quatro, com 57,06% de armazenamento. Ambos os subsistemas enfrentam regime de chuvas mais escasso nos últimos 30 dias até 15 de junho de 2026. O Sudeste recebeu apenas 41,4 milímetros acumulados nesse período, enquanto o Sul acumulou 128,4 milímetros no mesmo intervalo. Para efeito de comparação, a média histórica de precipitação no Sudeste em junho costuma ficar entre 60 e 80 milímetros, o que indica que a região está operando com déficit hídrico relevante. O Sul, apesar de ter recebido mais chuva em termos absolutos, também está abaixo da média esperada para o período, que normalmente ultrapassa 150 milímetros em junho.
O Nordeste e o Norte, que juntos representam menor parcela da capacidade instalada do SIN, estão em níveis altos. O Nordeste acumulou 171,2 milímetros de chuva em 30 dias até 15 de junho, e o Norte 259,0 milímetros no mesmo intervalo. Esse regime de precipitação intenso está em sintonia com os níveis de armazenamento observados. Bacias que recebem mais água naturalmente mantêm reservatórios mais cheios, e o padrão atual reflete a sazonalidade típica dessas regiões. No Norte, junho marca o início do período de maior vazão dos rios amazônicos, alimentados pelas chuvas de verão que começam em dezembro e se estendem até maio. No Nordeste, a precipitação de junho ainda carrega o efeito residual das chuvas de outono, que costumam ser mais intensas entre março e maio.
A relação entre chuva agregada por subsistema e o nível de energia armazenada sugere que o padrão de precipitação recente é fator relevante na composição atual dos reservatórios. Essa correlação não é perfeita, porque o armazenamento também depende da demanda de energia em cada região, da capacidade de transferência entre subsistemas via linhas de transmissão, e da decisão operacional do ONS sobre quando despachar térmicas ou preservar água nos reservatórios. Mas a tendência geral se confirma. Regiões que receberam mais de 150 milímetros em 30 dias estão com reservatórios acima de 90%. Regiões que receberam menos de 130 milímetros estão abaixo de 70%.
Quando reservatórios operam em níveis baixos, a operação do sistema demanda maior acionamento de usinas termelétricas para garantir o suprimento de energia. Usinas térmicas são mais caras de operar do que usinas hidrelétricas, e esse custo adicional eventualmente pressiona a bandeira tarifária e, por consequência, o índice de preços ao consumidor na categoria energia elétrica residencial. O quadro atual, com o Sudeste em 65,80% e o Sul em 57,06%, não sinaliza emergência imediata, mas tampouco oferece margem de conforto em caso de prolongamento da estiagem. O histórico recente mostra que, quando o Sudeste cai abaixo de 60% em junho, o sistema costuma acionar bandeira amarela ou vermelha nos meses seguintes, dependendo da evolução das chuvas em julho e agosto.
A heterogeneidade entre subsistemas é estrutural no Brasil. Cada região tem sua bacia hidrográfica, seu regime de chuvas e sua sazonalidade própria. O que muda é a intensidade dessa disparidade de um período para outro. No momento, a diferença de 39,58 pontos percentuais entre o mais cheio e o mais crítico reflete tanto a geografia quanto o padrão climático das últimas semanas. Essa amplitude não é inédita. Em anos de La Niña, quando o Sul recebe menos chuva e o Norte recebe mais, a disparidade pode ultrapassar 45 pontos percentuais. Em anos de El Niño, o padrão se inverte parcialmente, mas a heterogeneidade persiste. O que o dado de 15 de junho de 2026 mostra é que o sistema está operando dentro do padrão esperado de variação regional, com o Norte e o Nordeste em situação confortável e o Sudeste e o Sul exigindo atenção nos próximos meses.