Reservatórios do Nordeste e Norte operam cheios enquanto Sudeste enfrenta seca
Distribuição desigual de chuva entre subsistemas mantém heterogeneidade crítica na capacidade de armazenamento de energia.
Os quatro subsistemas do Sistema Interligado Nacional apresentam em 17 de junho de 2026 um quadro de forte disparidade. O Nordeste opera em 91,01% de sua capacidade máxima, o Norte em 95,88%, enquanto o Sudeste/Centro-Oeste está em 65,79% e o Sul em 56,40%. A diferença entre o subsistema mais cheio e o mais crítico atinge 39,48 pontos percentuais, refletindo bacias hidrográficas distintas e regimes de chuva radicalmente diferentes entre regiões.
O Sudeste/Centro-Oeste, que concentra aproximadamente 70% da capacidade total do SIN, é o subsistema mais relevante para a operação do sistema. Seu nível atual de 65,79% fica abaixo da faixa de segurança operacional típica, que gira em torno de 70% a 80%. Quando reservatórios desse subsistema caem para patamares moderados, a operadora do sistema começa a acionar termelétricas com maior frequência, aumentando o custo marginal da geração e eventualmente pressionando a estrutura de custos da energia entregue ao consumidor. A energia armazenada, ou EAR, é a métrica que o Operador Nacional do Sistema Elétrico usa para medir quanto de água está disponível nos reservatórios em relação à capacidade máxima de armazenamento. Quanto menor o EAR, maior a dependência de fontes térmicas, que queimam gás natural, carvão ou óleo diesel para gerar eletricidade. Essas fontes são mais caras que a hidrelétrica e seu acionamento se reflete nas bandeiras tarifárias que o consumidor paga na conta de luz.
O Sul também opera sob pressão, em 56,40%, o segundo nível mais crítico do país. Esse subsistema, embora menor em capacidade instalada que o Sudeste, é estratégico para o equilíbrio do sistema porque suas hidrelétricas funcionam como reserva de segurança em momentos de estresse hídrico em outras regiões. Com o Sul operando abaixo de 60%, a margem de manobra do ONS diminui, e a necessidade de despacho térmico em todo o país aumenta. Em contraste, Nordeste e Norte mantêm folga operacional confortável, com reservatórios em níveis altos. Essa heterogeneidade não é acidental. Nos últimos 30 dias, até 17 de junho, o padrão de chuva entre subsistemas foi muito desigual. O Nordeste recebeu 155,1 milímetros de precipitação agregada, enquanto o Norte acumulou 249,3 milímetros. O Sudeste/Centro-Oeste, em paralelo, registrou apenas 42,2 milímetros, e o Sul 116,0 milímetros.
A chuva é o principal input de reposição dos reservatórios. O regime observado nos últimos 30 dias explica em parte a divergência atual entre subsistemas. Nordeste e Norte, beneficiados por precipitação abundante, mantêm seus estoques elevados. Sudeste e Sul, em sintonia com um padrão de chuva mais escasso, enfrentam níveis mais modestos. Essa distribuição desigual de água é típica das bacias hidrográficas brasileiras em junho, quando o hemisfério sul entra em inverno e a dinâmica de chuvas se reorganiza regionalmente. O Nordeste, em particular, costuma receber chuvas mais intensas entre março e julho, período em que a Zona de Convergência Intertropical migra para o sul e favorece precipitação sobre a região. O Norte, por sua vez, mantém regime de chuvas relativamente estável ao longo do ano devido à proximidade com a Amazônia, onde a evapotranspiração da floresta alimenta um ciclo contínuo de precipitação.
O Sudeste e o Sul, ao contrário, entram em período seco entre maio e setembro. Historicamente, os reservatórios dessas regiões começam a ser repostos apenas a partir de outubro, quando as chuvas de primavera e verão retornam. Isso significa que os níveis atuais de 65,79% no Sudeste e 56,40% no Sul tendem a cair ainda mais nas próximas semanas, a menos que haja um evento climático atípico que traga precipitação fora de época. O ONS monitora essas tendências diariamente e ajusta o despacho de usinas térmicas conforme a necessidade, buscando preservar os reservatórios para o período crítico de pico de demanda, que ocorre entre dezembro e fevereiro.
Reservatórios moderados no Sudeste não significam crise iminente, mas indicam que o sistema opera com menor margem de manobra. Se o padrão de chuva escassa persistir nas próximas semanas, a pressão sobre a operação térmica tende a aumentar. Isso pode eventualmente refletir-se em bandeiras tarifárias mais altas e contribuir para pressão no IPCA energia. As bandeiras tarifárias são o mecanismo que a Agência Nacional de Energia Elétrica usa para repassar ao consumidor o custo adicional da geração térmica. Quando o sistema opera com folga hídrica, a bandeira fica verde e não há cobrança extra. Quando a geração térmica é acionada, a bandeira passa para amarela ou vermelha, dependendo da intensidade do despacho, e o consumidor paga um adicional por cada 100 kWh consumidos. Esse adicional pode variar de alguns reais a mais de dez reais por 100 kWh, dependendo do nível de acionamento térmico.
Por enquanto, o quadro é de heterogeneidade administrável, com subsistemas cheios compensando parcialmente a moderação do Sudeste. A interligação entre os subsistemas permite que energia gerada no Norte e no Nordeste seja transmitida para o Sudeste e o Sul, aliviando a pressão sobre os reservatórios dessas regiões. Essa transferência, no entanto, tem limites físicos impostos pela capacidade das linhas de transmissão e pelas perdas de energia que ocorrem ao longo do trajeto. A evolução do regime de chuvas nas próximas semanas será determinante para a trajetória dos níveis nos próximos meses. Se a seca persistir no Sudeste e no Sul, o acionamento térmico tende a se intensificar, com impacto direto na conta de luz e no índice de inflação. Se chuvas atípicas ocorrerem, o quadro pode se estabilizar antes do período crítico de verão.