Reservatórios do Sul caem a 56,66% enquanto Norte e Nordeste permanecem cheios
Disparidade de 38,27 pontos percentuais entre subsistemas reflete regimes de chuva distintos nas bacias hidrográficas.
Os quatro subsistemas do Sistema Interligado Nacional apresentam em 24 de junho de 2026 um quadro de forte heterogeneidade nos níveis de energia armazenada. O Sudeste/Centro-Oeste, que concentra aproximadamente 70% da capacidade total do SIN, está em 65,60%. O Nordeste marca 89,97%. O Norte atinge 94,93%. O Sul, o mais crítico do país, opera em 56,66%.
A diferença entre o subsistema mais cheio e o mais crítico é de 38,27 pontos percentuais. Essa disparidade não é anomalia, mas reflexo de bacias hidrográficas geograficamente distintas e regimes de precipitação que variam conforme a estação e a latitude. O Norte e o Nordeste, alimentados por chuvas equatoriais e tropicais, historicamente acumulam água em níveis mais altos durante o período de junho. O Sudeste e o Sul respondem a padrões de chuva diferentes, com o Sul particularmente sensível ao regime subtropical, que tende a concentrar precipitações no inverno e na primavera, mas com variabilidade interanual elevada.
O conceito de Energia Armazenada (EAR) mede quanto dos reservatórios está cheio em relação à capacidade máxima de cada subsistema. Quando o EAR está em 94,93%, como no Norte, significa que os reservatórios daquela região estão operando próximos ao limite superior, com folga operacional ampla. Quando está em 56,66%, como no Sul, a margem de segurança é menor, e o sistema depende mais de chuvas regulares ou de transferência de energia de outros subsistemas via linhas de transmissão. O ONS publica os EARs diários no dia útil seguinte à medição, permitindo acompanhamento em tempo quase real.
Nos últimos 30 dias até 24 de junho de 2026, o regime de chuva reforçou essa heterogeneidade. O Nordeste acumulou 163,7 milímetros em média nas cidades monitoradas pelo Open-Meteo, em sintonia com seu nível de reservatório elevado. O Norte recebeu 217,0 milímetros, o maior volume entre os subsistemas, alinhado com seu EAR de 94,93%. O Sudeste/Centro-Oeste, por sua vez, registrou apenas 41,1 milímetros no mesmo período, volume baixo que se associa ao nível moderado do reservatório em 65,60%. O Sul acumulou 127,7 milímetros, intermediário, mas insuficiente para elevar um reservatório já operando em nível crítico.
Essa distribuição desigual de chuvas não é acidental. O Norte, dominado pela bacia Amazônica, recebe precipitação abundante durante quase todo o ano, com pico entre dezembro e maio. O Nordeste, embora semiárido em boa parte do território, tem reservatórios estratégicos que captam chuvas concentradas no primeiro semestre. O Sudeste/Centro-Oeste, que abriga as maiores hidrelétricas do país (Furnas, Emborcação, Itumbiara, entre outras), enfrenta estação seca pronunciada entre maio e setembro. O Sul, por sua vez, depende de frentes frias e sistemas frontais que trazem chuva de forma irregular, com maior concentração no inverno, mas sem a previsibilidade dos regimes equatoriais.
Reservatórios baixos no Sul e moderados no Sudeste têm implicação direta no custo operacional do sistema. Quando o armazenamento cede, o Operador Nacional do Sistema ativa mais usinas termelétricas para complementar a geração hidrelétrica. Térmica é mais cara que hidro, porque queima gás natural, óleo diesel ou carvão, combustíveis cujo custo é repassado ao consumidor. Esse custo adicional eventualmente se reflete na bandeira tarifária (verde, amarela ou vermelha) e no IPCA energia, o subíndice do IPCA que mede variação de preços de eletricidade residencial.
O Sudeste, dominante em capacidade instalada, ainda está em patamar confortável, mas a trajetória do Sul merece acompanhamento. Junho marca o início da estação seca no Sul, período em que chuva tende a diminuir e reservatórios costumam ceder. Se o EAR do Sul continuar caindo nas próximas semanas sem reposição por chuva ou por transferência de energia de outros subsistemas, o ONS pode precisar despachar térmicas locais, elevando o Custo Marginal de Operação (CMO) da região. O CMO é o custo de produzir o próximo megawatt-hora no sistema, e quando sobe, sinaliza aperto na oferta.
Para o consumidor final, a consequência prática de reservatórios baixos no Sul pode aparecer na conta de luz a partir de agosto ou setembro, caso a seca se prolongue. A bandeira tarifária é revista mensalmente pela Aneel com base no CMO e no nível dos reservatórios. Bandeira verde significa geração hidrelétrica farta e barata. Bandeira vermelha patamar 2 significa térmicas caras operando em larga escala. O spread de 38,27 pontos percentuais entre Norte e Sul não aciona bandeira por si só, mas indica que o sistema está operando com assimetria regional pronunciada, o que reduz a margem de manobra do ONS em caso de choque adicional (seca prolongada, quebra de linha de transmissão, manutenção não programada de usina).
Os dados de chuva e EAR encerram em 24 de junho de 2026. O Open-Meteo atualiza diariamente sem lag relevante. O ONS publica os níveis diários no dia útil seguinte à medição. O acompanhamento das próximas semanas dirá se o Sul consegue recuperar reservatórios antes do pico da estação seca ou se o sistema precisará acionar térmicas de forma mais intensa.