Diferencial de juros Brasil-EUA recua 0,49 ponto e fluxo cambial inverte para entrada
Prêmio da Selic sobre o Fed Funds caiu para 10,87 pontos percentuais em junho.
A Selic em 14,50% ao ano e o Fed Funds em 3,63% ao ano deixam um diferencial de 10,87 pontos percentuais entre as duas taxas, segundo dados de junho de 2026. Seis meses antes, em dezembro de 2025, esse diferencial era de 11,36 pontos percentuais. A compressão de 0,49 ponto percentual reflete um carry trade menos atrativo do que estava no fim do ano passado, já que a diferença entre aplicar no Brasil e nos Estados Unidos diminuiu.
O carry trade funciona assim: investidores tomam empréstimos em dólar a juros baixos nos Estados Unidos, convertem esses dólares em reais, aplicam em títulos brasileiros que pagam a Selic, e lucram com a diferença entre as duas taxas. Quanto maior o prêmio de juros do Brasil sobre os Estados Unidos, mais atrativo fica trazer dólar para aplicar aqui e embolsar essa diferença. Quando esse diferencial se amplia, o fluxo cambial tende a se fortalecer no mês seguinte, com entrada líquida de dólares no país. Quando comprime, como aconteceu nos últimos seis meses, o incentivo diminui e o fluxo pode arrefecer ou até inverter de sinal.
O dado do fluxo cambial de maio de 2026, divulgado pelo Banco Central, mostra exatamente essa inversão. O saldo líquido foi de US$ 565,35 milhões em entrada, contra uma média de US$ 992,22 milhões em saída nos seis meses anteriores. A mudança de sinal é significativa: o Brasil passou de exportador líquido de dólares para importador líquido no mês de maio, movimento que coincide com a trajetória de compressão do diferencial de juros observada desde dezembro. A entrada de maio interrompe uma sequência de saídas que vinha desde o fim de 2025, quando o diferencial ainda estava acima de 11 pontos percentuais.
Mas o carry trade é apenas um dos motores do fluxo cambial, e não necessariamente o mais importante em todos os momentos. Risco-país, medido pelo CDS de cinco anos, afeta diretamente a percepção de segurança dos investidores estrangeiros. Preços de commodities, especialmente soja, minério de ferro e petróleo, determinam o volume de dólares que entra via exportações. Sazonalidade também pesa: dezembro tem dinâmica própria de hedge cambial por parte de empresas que fecham balanços anuais, e janeiro costuma trazer fluxo de remessas de lucros e dividendos ao exterior. Choques externos, como mudanças abruptas na política monetária do Federal Reserve ou crises em outros mercados emergentes, podem dominar o fluxo independentemente do prêmio de juros.
A volatilidade mês a mês do fluxo cambial é alta por natureza. Um único mês de entrada não garante tendência. A leitura de que o fluxo tende a se sustentar em patamares positivos nos próximos meses se sustenta apenas se três cenários não se materializarem: uma decisão do Copom ou do FOMC que altere o diferencial de forma abrupta, um choque externo agudo de aversão a risco que domine o mercado, ou um evento doméstico que mude a percepção de risco-país. Qualquer um desses gatilhos invalidaria a projeção baseada apenas no diferencial de juros.
O diferencial de 10,87 pontos percentuais segue elevado em termos históricos. A média dos últimos cinco anos fica em torno de 8 pontos percentuais, o que coloca o patamar atual acima da norma recente. Mas a trajetória de compressão é o sinal que importa para quem acompanha o fluxo cambial. Se o Banco Central mantiver a Selic estável e o Federal Reserve continuar com a política atual, o diferencial deve se estabilizar em torno de 10,5 a 11 pontos percentuais nos próximos meses, patamar que ainda oferece prêmio relevante mas menor do que o observado no fim de 2025.
Para investidores que operam carry trade, a compressão do diferencial reduz a margem de lucro da operação, mas não a elimina. O prêmio de quase 11 pontos percentuais ainda compensa o risco cambial em cenários de estabilidade. Para empresas exportadoras, a entrada de dólares via fluxo cambial pode pressionar o real para baixo, o que melhora a competitividade das vendas externas mas encarece insumos importados. Para o Banco Central, o fluxo positivo alivia a pressão sobre as reservas internacionais e reduz a necessidade de intervenção no mercado de câmbio.
A próxima leitura mensal do fluxo cambial chegará em julho, com dados de junho de 2026, e dirá se a estabilização do carry em torno de 10,87 pontos percentuais se confirma ou se novas mudanças de política monetária redefinem o cenário.