Prêmio de 10,62 pontos percentuais no carry trade não garante estabilidade do real
Diferencial de juros está próximo do topo histórico, mas correlação com câmbio é praticamente nula.
A Selic meta está em 14,25% ao ano desde 7 de julho de 2026, enquanto o Fed Funds Effective Rate, medido em 1º de junho de 2026, era de 3,63%. O diferencial entre as duas taxas chegou a 10,62 pontos percentuais, um dos patamares mais elevados dos últimos cinco anos. Esse spread remunera quem fica posicionado em real: quanto maior a diferença entre os juros brasileiros e americanos, maior o prêmio para manter dólares convertidos em reais e aplicados na taxa local.
O carry trade funciona assim. Um investidor toma emprestado dólares a 3,63% ao ano, converte para reais, aplica na Selic a 14,25% e embolsa a diferença. Se o real não desvaloriza muito, o ganho é garantido. O diferencial de 10,62 pontos percentuais é robusto: nos últimos 63 meses, oscilou entre 3,44 e 12,04 pontos percentuais, conforme o Elucidados calculou a partir de dados do Banco Central e do Federal Reserve. O patamar atual fica próximo do topo dessa janela, sinalizando que o prêmio para ficar em real está elevado em termos históricos recentes.
Mas o real não tem respondido de forma consistente a esse prêmio. Nos últimos 180 dias, o real ganhou 4,46% de força frente ao dólar, movimento que sugere atração de fluxo estrangeiro ou redução de saída de capitais. Nos últimos 90 dias, porém, cedeu 1,10%. Nos últimos 30 dias, cedeu 0,42%. A oscilação entre ganho e perda, mesmo com diferencial de juros elevado e estável, indica que o carry não está operando como motor dominante do câmbio nesta janela.
A correlação entre o diferencial mensal e a variação da PTAX ao longo dos 63 meses é de apenas -0,08, praticamente nula. Pelo carry clássico, essa correlação deveria ser negativa e relevante: diferencial maior deveria atrair fluxo em real, fortalecendo a moeda e reduzindo a PTAX. Uma correlação de -0,08 significa que, na prática, o diferencial de juros explica menos de 1% da variação cambial observada no período. A fraqueza da relação sugere que outros fatores estão pesando mais.
O regime classificado é carry fraco. Isso não significa que o carry trade não exista ou não remunere quem está posicionado. Significa que, nesta janela de 63 meses, o diferencial de juros não foi o motor dominante do câmbio. Risco-país, fluxo comercial, cenário global e expectativas sobre política monetária futura também operam e, em muitos períodos, dominaram a direção do real. Quando o Banco Central sobe juros para conter inflação, por exemplo, o diferencial aumenta, mas o real pode ceder se o mercado interpreta a alta como sinal de descontrole inflacionário. Quando o Federal Reserve sinaliza cortes futuros, o diferencial pode se ampliar, mas o real pode ganhar força se o fluxo global para emergentes se intensifica.
Uma ressalva importante: a correlação mede co-movimento, não causalidade. O Fed Funds é divulgado mensalmente pelo Federal Reserve, enquanto a Selic é atualizada diariamente pelo Banco Central; o diferencial é reconstruído mês a mês pelo Elucidados. O carry é um dos canais pelos quais o câmbio se move, mas não o único. A fraqueza da relação nesta janela não invalida o carry como mecanismo, apenas indica que ele não foi suficiente para explicar a trajetória do real entre julho de 2021 e julho de 2026.
A PTAX está em R$ 5,1455 por dólar na apuração de 7 de julho de 2026. O diferencial permanece elevado, mas o histórico recente mostra que prêmio alto não é garantia de estabilidade cambial. O real continua sujeito a múltiplas forças simultaneamente. Para quem está posicionado em carry trade, o diferencial de 10,62 pontos percentuais remunera bem, mas a volatilidade cambial pode corroer parte do ganho. Para quem acompanha o mercado sem posição, o dado mostra que o câmbio brasileiro responde a um conjunto mais amplo de variáveis do que apenas o diferencial de juros, e que prever a direção do real exige olhar além da Selic e do Fed Funds.
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