Custo do crédito sobe 0,45 ponto percentual e pressiona consumo das famílias
O Indicador de Custo do Crédito (ICC) atingiu 24,29% ao ano em abril de 2026, patamar que supera a média recente de
O Indicador de Custo do Crédito (ICC) atingiu 24,29% ao ano em abril de 2026, patamar que supera a média recente de 23,84% ao ano em 0,45 ponto percentual. O movimento de alta, que soma 0,39 ponto percentual nos últimos três meses, sinaliza um encarecimento das condições financeiras que tende a preceder a desaceleração do consumo das famílias em um horizonte de 60 a 90 dias.
O ICC funciona como um termômetro do custo médio do crédito no Sistema Financeiro Nacional, calculado pelo Banco Central a partir das taxas efetivamente praticadas em operações de crédito livre (aquelas sem direcionamento obrigatório, como financiamento imobiliário com recursos da poupança). Quando o indicador sobe por alguns meses consecutivos, o acesso ao crédito torna-se mais oneroso para pessoas físicas e empresas, o que tende a desestimular o consumo e o investimento. A transmissão dessa política para a economia real não é imediata, porque contratos já firmados seguem com as taxas antigas e porque famílias levam tempo para ajustar o comportamento de compra. Por isso, o ICC serve como sinalizador antecipatório de movimentos que podem ser observados no varejo em trimestres subsequentes.
A alta de 0,39 ponto percentual em três meses coloca o ICC em trajetória ascendente desde o início do ano. Parte desse movimento reflete a manutenção da Selic em patamar elevado, mas outra parte vem do aumento dos spreads bancários, a diferença entre o custo de captação dos bancos e a taxa cobrada do tomador final. Spreads sobem quando os bancos percebem maior risco de inadimplência ou quando a concorrência no setor diminui. O ICC captura ambos os efeitos, tornando-se um indicador mais completo do custo efetivo do crédito do que a Selic isolada.
Enquanto o custo do dinheiro avança, o volume de vendas do comércio varejista ampliado registrou alta de 6,50% na comparação anual de março de 2026, revertendo a queda de 2,10% observada no mês anterior. A resiliência do varejo, apesar da elevação no custo do crédito, indica que o canal de transmissão para o consumo ainda está em curso e não atingiu um ponto de inflexão que freie o volume de vendas. Parte dessa resiliência pode vir de compras antecipadas, antes que o crédito fique ainda mais caro, ou de famílias que ainda conseguem acessar linhas contratadas em condições anteriores.
O IPCA do grupo serviços, que registrou 0,04% em abril de 2026, permanece bem abaixo da média de 0,72% observada nos últimos 12 meses. Como o setor de serviços possui componentes inerciais e contratos de longo prazo (aluguéis, mensalidades escolares, planos de saúde), a desaceleração observada aqui tende a refletir o ambiente de crédito com defasagem maior do que a vista no comércio varejista. Serviços costumam responder mais lentamente porque dependem menos de financiamento direto ao consumidor e mais da renda disponível das famílias, que por sua vez é afetada pelo crédito de forma indireta.
O cenário atual classifica-se como aperto de crédito em estágio inicial. O custo médio do Sistema Financeiro Nacional sobe, mas a atividade comercial ainda mantém fôlego. A persistência dessa trajetória de alta no ICC, caso não seja acompanhada por mudanças relevantes na Selic ou por programas emergenciais de crédito, tende a pressionar o consumo nos próximos períodos. Para o investidor, o movimento sugere atenção redobrada a setores dependentes de crédito ao consumidor, como varejo de bens duráveis e construção civil, que costumam sentir o impacto do ICC com maior intensidade.