Salário mínimo ganhou poder de compra em alimentos nos últimos 12 meses
Reajuste nominal superou a inflação do grupo, mas ganho é modesto para famílias que gastam fatia desproporcional da renda com comida.
O salário mínimo em junho de 2026 está em R$ 1.621,00. No mesmo mês, a inflação de Alimentação e Bebidas recuou 0,24%, interrompendo pressão anterior. Ao olhar para trás, o piso ganhou 6,79% de reajuste nominal nos últimos 12 meses, enquanto a inflação acumulada do grupo alimentos ficou em 3,80%. A diferença resulta em ganho de 2,99 pontos percentuais de poder de compra alimentar.
Este cruzamento importa porque famílias que ganham o salário mínimo gastam proporção muito maior da renda com comida do que famílias de renda média ou alta. Economistas chamam isso de curva de Engel, conceito formulado pelo estatístico alemão Ernst Engel no século XIX: quanto menor a renda, maior a fração do orçamento que vai para alimentos. Uma família de classe média pode gastar entre 15% e 20% da renda com comida, segundo dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE. Uma família no piso gasta facilmente entre 35% e 45%, dependendo da composição do domicílio e da região. Por isso, quando a inflação de alimentos sobe mais que a inflação geral, o piso sofre erosão desproporcional. E quando a inflação de alimentos cai, o ganho de poder de compra é real e concentrado.
O ganho de 2,99 pontos percentuais é modesto, mas positivo. Significa que quem ganha o mínimo conseguiu comprar um pouco mais de alimentos com o mesmo salário do que conseguia um ano atrás. Não é expansão de renda real robusta, mas é ganho. A magnitude fica entre leve e moderada em termos históricos: há períodos em que o piso perde poder de compra alimentar, e há períodos em que ganha mais que isso. O contexto importa. Entre 2020 e 2022, por exemplo, a inflação de alimentos acumulou alta superior a 20% em 24 meses, enquanto o salário mínimo subiu cerca de 15% no mesmo intervalo, resultando em perda líquida de poder de compra. O movimento atual inverte essa dinâmica, ainda que de forma tímida.
É importante notar que este cálculo usa o IPCA Alimentação e Bebidas, que inclui itens consumidos fora do domicílio, como refeições em bares e restaurantes. Famílias de baixa renda gastam proporção maior em alimentos no domicílio, cuja inflação pode divergir do grupo agregado. Quando a inflação de alimentação fora do domicílio acelera por pressão salarial no setor de serviços, por exemplo, o índice geral sobe, mas o impacto sobre quem come em casa é menor. O IBGE divulga subgrupos detalhados do IPCA, mas a série histórica longa e comparável está no agregado Alimentação e Bebidas, que é o usado aqui.
Além disso, a análise restringe-se ao salário mínimo nominal. Quem recebe Bolsa Família ou outros programas de transferência tem composição de renda diferente, e o impacto da inflação de alimentos varia conforme a estrutura de cada transferência. O Bolsa Família, por exemplo, tem reajustes que seguem regra própria, nem sempre alinhada ao calendário do salário mínimo. A série de transferências sociais não está disponível publicamente com granularidade mensal e histórico longo, então a análise se concentra no piso, que é a referência mais estável e documentada.
O recuo mensal de 0,24% em junho de 2026 sugere alívio recente no grupo. Se esse padrão se mantiver, o poder de compra alimentar do piso pode se expandir ainda mais nos próximos meses. Se a inflação de alimentos voltar a acelerar, o ganho acumulado pode se dissipar. O dado de hoje mostra apenas o que já aconteceu. A trajetória futura depende de safra, câmbio, preço internacional de commodities e política monetária, variáveis que o salário mínimo não controla.
Para quem vive do piso, o ganho de 2,99 pontos percentuais em 12 meses representa alívio concreto no orçamento doméstico, ainda que modesto. Não muda estruturalmente a condição de vida, mas permite comprar um pouco mais de arroz, feijão, carne e leite sem apertar outras despesas. Em termos práticos, é a diferença entre fechar o mês no vermelho ou no azul, entre substituir proteína por carboidrato ou manter a dieta equilibrada. O número é pequeno, mas o impacto é real.
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