Mercado precifica inflação de 5,67% em cinco anos, 1,17 ponto percentual acima do teto da meta
O mercado exige uma inflação média de 5,67% ao ano nos próximos cinco anos para que um investidor fique indiferente entre comprar
O mercado exige uma inflação média de 5,67% ao ano nos próximos cinco anos para que um investidor fique indiferente entre comprar um título prefixado ou um título atrelado à inflação. Este número, chamado break-even inflacionário, sai da comparação entre dois títulos do Tesouro Direto de mesmo prazo: o Prefixado em 14,67% ao ano e o IPCA+ em 8,52% ao ano, ambos com vencimento em cinco anos, conforme a curva de 8 de junho de 2026.
O break-even funciona assim. Um título prefixado oferece taxa nominal fixa, independente do que aconteça com os preços. Um título IPCA+ oferece taxa real fixa mais a inflação que vier, protegendo o investidor da corrosão do poder de compra. Se a inflação real for maior que o break-even, o IPCA+ rende mais. Se for menor, o Prefixado rende mais. O ponto de equilíbrio entre os dois é exatamente a inflação que o mercado está precificando. Quando esse ponto sobe, significa que os investidores estão exigindo mais compensação para abrir mão da proteção inflacionária, sinalizando desconfiança na convergência dos preços.
Este patamar de 5,67% está 2,67 pontos percentuais acima da meta central do Banco Central de 3,00%, estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional. O intervalo de tolerância da meta vai de 1,50% a 4,50%, ou seja, o Banco Central tem margem de manobra de 1,5 ponto percentual para cima e para baixo. O break-even de 5,67% está 1,17 ponto percentual acima do teto permitido de 4,50%, indicando que o mercado não acredita que a inflação voltará ao intervalo de tolerância nos próximos cinco anos, mesmo com a política monetária contracionista em vigor.
Historicamente, em 131 pregões pareados desde que a série começou a ser calculada pelo Elucidados, o break-even de cinco anos oscilou entre 5,00% e 5,83%, com média de 5,38%. O nível de 8 de junho de 2026 supera 89 de cada 100 pregões do período, situando-se entre os patamares mais elevados já registrados. A proximidade do teto histórico de 5,83% reforça a leitura de que as expectativas de inflação estão ancoradas em patamar estruturalmente alto, não apenas em movimento pontual.
A pressão nas expectativas é recente e acelerada. Nos últimos 180 dias, o break-even subiu 0,40 ponto percentual. Nos últimos 90 dias, subiu 0,25 ponto percentual. Nos últimos 30 dias, subiu 0,15 ponto percentual. O movimento contínuo de deterioração sugere que o mercado está incorporando persistência inflacionária na sua leitura de médio prazo, possivelmente refletindo dúvidas sobre a capacidade do Banco Central de manter a Selic em patamar suficientemente restritivo por tempo suficiente, ou sobre a eficácia da política monetária diante de choques de oferta e pressões fiscais.
A estrutura da curva reforça essa leitura. O break-even de dez anos está em 6,33%, calculado a partir do Prefixado de dez anos em 14,74% ao ano e do IPCA+ de dez anos em 7,91% ao ano. A diferença de 0,66 ponto percentual entre o break-even de dez anos e o de cinco anos indica que o mercado precifica inflação ainda mais elevada na segunda metade da década do que na primeira. Essa inclinação positiva da curva de break-even é sinal de ceticismo sobre a capacidade de ancoragem das expectativas no longo prazo. Em ambiente de expectativas bem ancoradas, o break-even de dez anos costuma ficar próximo ou até abaixo do de cinco anos, refletindo confiança na convergência futura.
Uma ressalva importante: o break-even embute, além da inflação esperada pura, um prêmio de risco inflacionário. O investidor cobra a mais por carregar incerteza sobre a trajetória de preços. Quanto maior a volatilidade esperada da inflação, maior esse prêmio. Por isso o break-even costuma ficar acima da inflação esperada reportada em pesquisas como o Focus do Banco Central, que captura a mediana das projeções dos analistas sem incorporar o prêmio de risco. A leitura de expectativas de inflação sem esse prêmio exigiria descontar o componente de risco, operação que depende de modelo de precificação e não é observável diretamente nos preços dos títulos. Ainda assim, o nível absoluto do break-even e sua trajetória recente são indicadores relevantes do humor do mercado.
Os números mostram um mercado que não acredita na convergência rápida para a meta. Não dizem quando essa convergência pode acontecer, nem qual será o caminho. Dizem apenas que, em 8 de junho de 2026, quem compra um título de longo prazo está embutindo inflação bem acima do alvo do Banco Central, e que essa desconfiança vem se acentuando nos últimos seis meses.