Diesel doméstico acumula seis pregões com defasagem acima de 8%
Preço de refinaria da Petrobras segue distante da paridade de importação mesmo com queda do petróleo.
O diesel vendido pela Petrobras nas refinarias brasileiras mantém defasagem de 23,13% em relação ao Custo de Paridade de Importação no pregão de 22 de junho de 2026, segundo cálculo do Elucidados. A média dos cinco pregões anteriores ficou em 19,15%, indicando pressão de alta consistente. Há seis pregões consecutivos com defasagem acima de 8%, patamar que sinaliza combustível doméstico mais caro do que o preço internacional justificaria, considerando câmbio e frete.
Essa defasagem mede a diferença entre o preço que a Petrobras cobra nas refinarias e o custo teórico de importar diesel pronto do mercado internacional, trazendo o produto até o porto brasileiro. Quando a defasagem é positiva, significa que o diesel da Petrobras está mais caro que o importado. Quando negativa, está mais barato. O cálculo envolve três componentes principais: o preço do petróleo Brent no mercado internacional, a taxa de câmbio do real frente ao dólar, e a política de preços da Petrobras, que desde 2023 segue o modelo de Custo Privado Próprio, sem compromisso de acompanhar a paridade diária.
O petróleo Brent fechou em US$ 76,49 por barril até 22 de junho de 2026, em queda de 28,45% nos últimos 30 dias. Essa redução significativa deveria aliviar o preço do combustível no Brasil, já que o diesel é derivado direto do petróleo. Porém, o efeito foi parcialmente anulado pela desvalorização do real. A PTAX chegou a R$ 5,14 no mesmo período, com alta de 2,50% em 30 dias. Um real mais fraco encarece as importações de petróleo e derivados, porque o Brasil paga em dólar. Quando o câmbio sobe, cada barril de Brent custa mais reais, compensando parte do ganho que viria da queda do preço internacional.
A dinâmica cambial explica por que a queda de quase 30% no Brent não se traduziu em alívio proporcional no diesel doméstico. Se o real tivesse se mantido estável, a defasagem atual seria menor, ou até negativa, sinalizando diesel da Petrobras mais barato que o importado. Mas com o câmbio subindo 2,50% no mesmo período, o custo de importação em reais caiu menos do que o Brent em dólares. A defasagem de 23,13% reflete essa combinação: petróleo mais barato lá fora, mas real mais fraco aqui dentro.
O mandato de biodiesel também modula essa dinâmica. Desde a Lei 14.993 de 2024, o diesel comercializado no Brasil tem mistura obrigatória de 16% de biodiesel, formando o chamado B16. Essa composição afeta o custo final e a comparação com o diesel puro importado, criando uma camada adicional de complexidade na formação do preço doméstico. O biodiesel tem cadeia de produção própria, com preços influenciados por safra de soja, óleo de palma e políticas de incentivo ao biocombustível, fatores que não aparecem no cálculo da paridade de importação do diesel fóssil puro.
Um ponto importante merece transparência editorial. O Elucidados calcula essa defasagem internamente a partir de Brent, PTAX e preço de refinaria da Petrobras, com parâmetros calibrados em maio de 2026. Essa metodologia elimina dependência exclusiva de uma única fonte externa e permite atualização diária. Porém, ela diverge significativamente da leitura da Abicom, associação que representa importadores e distribuidores de combustíveis. A Abicom aponta defasagem de menos 30,0% no mesmo período, ou seja, diesel da Petrobras 30,0% mais barato que o importado. A diferença de 53,1 pontos percentuais entre as duas leituras é material e sinaliza que as metodologias estão capturando dinâmicas distintas, ou que uma delas está defasada em relação ao mercado real. Essa divergência merece acompanhamento nos próximos pregões para identificar qual sinal reflete melhor a realidade de mercado.
A leitura de pressão de alta sustentada se mantém enquanto alguns cenários permanecerem válidos. O Brent precisa ficar acima de US$ 76,49, o dólar entre R$ 5,04 e R$ 5,24, e a Petrobras não pode sinalizar mudança em sua política de Custo Privado Próprio via fato relevante à CVM. Também é necessário que não haja alteração na alíquota uniforme de ICMS sobre combustível, definida pelo Confaz, ou em tributação federal sobre o produto. Qualquer um desses gatilhos pode desconfigurar a leitura: Brent abaixo de US$ 72,49 sustentado por três pregões seguidos, dólar abaixo de R$ 4,99 no mesmo período, comunicado da Petrobras sobre subsídio temporário ou novo critério de precificação, ou redução de alíquota de ICMS pelo Confaz.
É importante notar que esta análise é descritiva e não oferece probabilidade quantificada sobre quando a pressão pode ceder. O modelo SENTINELA que alimenta esse cruzamento ainda não está calibrado para fazer projeções preditivas com confiança estatística. O que a peça entrega é um mapeamento dos fatores que sustentam a pressão atual e as condições que a invalidariam. O acompanhamento diário dessa defasagem, combinado com os movimentos de Brent e câmbio, oferece ao leitor os sinais para monitorar se o cenário está mudando. Para quem depende de diesel no custo operacional, seja transporte de carga, agricultura ou indústria, a defasagem acima de 8% por seis pregões consecutivos sinaliza que o alívio de preço não chegou ao mercado doméstico, mesmo com petróleo internacional em queda acentuada.