Crédito do sistema financeiro mantém estoque elevado sob Selic de 15,00%
O saldo de crédito do sistema financeiro nacional chegou a R$ 7.
O saldo de crédito do sistema financeiro nacional chegou a R$ 7.131,5 bilhões em dezembro de 2025, conforme dados do Banco Central divulgados no pacote mensal de Estatísticas Monetárias e de Crédito. A Selic Meta, naquela mesma data, estava fixada em 15,00% ao ano, patamar que configura regime monetário restritivo. A manutenção do estoque de crédito em nível elevado sob juros dessa magnitude configura uma dinâmica que merece atenção de quem acompanha a transmissão da política monetária para a economia real.
O saldo agregado de crédito é um dos principais canais pelos quais as decisões do Banco Central chegam até empresas e pessoas físicas. Quando o juro está alto, em tese, as concessões de novos empréstimos desaceleram, porque o custo do dinheiro fica menos atrativo tanto para quem toma quanto para quem empresta em modalidades de maior risco. Mas o que os dados mostram é um estoque que não cai, apenas deixa de crescer com a mesma intensidade de antes. Isso sugere que recursos que poderiam virar novas concessões estão migrando para alternativas de alocação, particularmente títulos públicos do Tesouro, que oferecem remuneração próxima à Selic com risco soberano.
Essa migração tende a ser mais intensa em janelas específicas do calendário econômico, entre cinco e dez dias após a divulgação dos pacotes mensais de dados pelo Banco Central. Nesse período, investidores institucionais e tesourarias de bancos recalculam suas carteiras à luz de novos indicadores de atividade, inflação e crédito, e reposicionam recursos entre renda fixa pública e crédito privado. Quando a Selic está em 15,00% ao ano, os títulos do Tesouro se tornam particularmente competitivos, porque oferecem segurança de renda fixa sem risco de crédito e com liquidez diária no mercado secundário. O resultado é que o mercado primário de crédito fica mais morno, não porque a demanda por empréstimos desapareceu, mas porque a oferta de recursos encontra saídas mais atrativas do ponto de vista da relação risco-retorno.
A leitura não é linear, porém. Três cenários podem reconfigurar essa dinâmica nos próximos meses. O primeiro é o início de um ciclo de corte da Selic, que reaqueceria as concessões ao tornar o crédito mais barato e reduzir a atratividade relativa dos títulos públicos. O segundo é a compensação contracíclica do crédito direcionado, segmento que responde menos aos juros de mercado porque tem subsídios governamentais e mandatos de política pública, como financiamento habitacional via FGTS e crédito rural com equalização de taxas. O terceiro é um choque de inadimplência que contraia a oferta de crédito independentemente da Selic, caso a deterioração da qualidade da carteira force os bancos a elevar provisões e restringir novas operações. Nenhum desses cenários está descartado, e a combinação de dois ou mais deles pode acelerar ou reverter a tendência observada em dezembro de 2025.
Uma ressalva metodológica importa aqui. O saldo agregado de R$ 7.131,5 bilhões mistura crédito livre, que é sensível aos juros de mercado e responde diretamente às decisões do Copom, e crédito direcionado, que segue lógica distinta e representa cerca de metade do estoque total do sistema. A série não discrimina entre os dois segmentos nesta etapa de divulgação, o que torna a análise menos precisa do que seria se tivéssemos os dados separados por modalidade e prazo. Além disso, a ausência de base comparável em janelas de 30, 90 e 180 dias impede situar o patamar atual em contexto histórico fino e calcular percentis de posição relativa. O que podemos dizer com segurança é que o estoque se mantém, que a Selic de 15,00% ao ano permanece restritiva em termos reais, e que essa combinação historicamente precede períodos de desaceleração nas concessões quando o aperto monetário se prolonga por mais de dois trimestres consecutivos. Análise qualitativa mais detalhada do pacote mensal virá em refinamento posterior, quando houver série histórica suficiente para cálculo de desvios e correlações.