Crédito do sistema financeiro desacelera sob Selic de 15,00% ao ano
Estoque cresce apenas 0,46% em 30 dias, sinalizando transmissão da política monetária restritiva.
O saldo de crédito do sistema financeiro nacional somava R$ 7,2 trilhões em fevereiro de 2026, segundo dados do Banco Central divulgados no pacote mensal de Estatísticas Monetárias e de Crédito. A expansão em 30 dias ficou em apenas 0,46%, um ritmo que contrasta com períodos de juros mais baixos e sinaliza como a política monetária restritiva está operando nos canais reais da economia. A Selic estava em 15,00% ao ano no período de referência, patamar que encarece o crédito e reduz a demanda por empréstimos tanto de famílias quanto de empresas.
O estoque de crédito é o volume total de recursos que bancos e instituições financeiras têm emprestado a pessoas físicas e jurídicas em determinado momento. Quando essa série cresce devagar, significa que as famílias estão tomando menos empréstimos para consumo e as empresas estão investindo menos com recursos de terceiros. A Selic funciona como o termostato dessa dinâmica. Juros altos encarecem o crédito porque os bancos repassam o custo de captação aos tomadores finais. Com isso, a demanda por empréstimos arrefece. Esse é o canal de transmissão monetária clássico, pelo qual o Banco Central desacelera a economia para conter pressões inflacionárias.
A desaceleração observada em fevereiro de 2026 não é isolada. Quando a Selic permanece em patamar restritivo por tempo prolongado, o comportamento típico é que as concessões de crédito livre, aquele negociado livremente entre bancos e clientes sem subsídio governamental, arrefeçam de forma mais acentuada. O crédito direcionado, por outro lado, que inclui financiamentos habitacionais pelo Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo e linhas do BNDES com taxas subsidiadas, tende a ser menos sensível à Selic. O saldo agregado que o Banco Central divulga mistura os dois segmentos, o que significa que a estabilidade observada em fevereiro pode estar encobrindo dinâmicas opostas. O crédito livre pode estar contraindo enquanto o direcionado compensa parte dessa queda.
Simultaneamente, o mercado primário do Tesouro emerge como alternativa de alocação para investidores e empresas com caixa disponível. É uma substituição de demanda. Em vez de tomar crédito caro para investir em expansão ou capital de giro, empresas preferem aplicar recursos em títulos públicos que oferecem retorno atrativo e liquidez. Para o investidor pessoa física, a mesma lógica se aplica. Com a Selic em 15,00% ao ano, títulos indexados à taxa básica ou ao IPCA com prêmio competem diretamente com o retorno esperado de investimentos produtivos financiados por crédito. Essa migração de recursos para o Tesouro é parte do mecanismo de desaceleração que o Banco Central busca ao manter juros elevados.
A leitura condicional que emerge desse padrão é que a desaceleração do crédito tende a persistir enquanto a Selic se mantiver elevada. Mas essa tendência enfraqueceria rapidamente se três cenários se materializassem. O primeiro seria o Banco Central iniciar um ciclo de corte de juros, o que reaqueceria as concessões de crédito livre ao reduzir o custo de captação dos bancos e, por consequência, as taxas finais cobradas dos tomadores. O segundo seria o crédito direcionado compensar contracíclicamente a queda do crédito livre, mascarando a desaceleração real do mercado. Isso já ocorreu em ciclos anteriores, quando o governo ampliou linhas subsidiadas para sustentar setores estratégicos mesmo com Selic alta. O terceiro seria um choque de inadimplência que contraísse abruptamente a oferta de crédito, independentemente da Selic. Nesse caso, os bancos reduziriam concessões por aversão ao risco, não por custo de captação.
Uma ressalva importante sobre a janela de análise. A variação de 0,46% em 30 dias captura um movimento de curto prazo, mas não permite afirmar se a desaceleração é tendência estrutural ou flutuação sazonal típica do início do ano. Fevereiro costuma ser mês de menor atividade econômica por conta do carnaval e das férias escolares, o que pode reduzir a demanda por crédito de forma transitória. Janelas comparativas mais longas, como 90 ou 180 dias, seriam necessárias para confirmar se o padrão se sustenta. Além disso, o pacote mensal do Banco Central, quando disponível com detalhamento por modalidade de crédito, permite refinar essa leitura e separar o que é movimento de crédito de fato do que é apenas reclassificação contábil entre categorias.
Para quem acompanha a economia real, a desaceleração do crédito é um dos sinais mais concretos de que a política monetária está funcionando. Diferentemente de indicadores de expectativa ou de preços de ativos, o estoque de crédito reflete decisões efetivas de consumo e investimento. Quando ele desacelera, a demanda agregada tende a arrefecer nos meses seguintes, o que eventualmente se traduz em pressão desinflacionária. A questão em aberto é se o Banco Central vai considerar essa desaceleração suficiente para iniciar um ciclo de afrouxamento monetário ou se vai manter a Selic restritiva por mais tempo, aguardando sinais mais claros de convergência da inflação para a meta.
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