Spread bancário brasileiro é quase três vezes maior que o americano
O custo médio do crédito no Brasil está em 24,10% ao ano, segundo o Indicador de Custo de Crédito (ICC) do Banco
O custo médio do crédito no Brasil está em 24,10% ao ano, segundo o Indicador de Custo de Crédito (ICC) do Banco Central medido em março de 2026. A Selic, taxa básica de juros que baliza o sistema financeiro, está em 15,00% ao ano no mesmo período. A diferença entre esses dois números é o spread bancário: 9,10 pontos percentuais. Esse é o valor que os bancos cobram acima da taxa básica para emprestar dinheiro à economia real. A pergunta que importa é simples: o crédito caro no Brasil é culpa da Selic alta, ou há um componente estrutural que torna o spread em si muito elevado?
O spread não é apenas margem de lucro dos bancos. Ele embute inadimplência esperada (quanto o banco calcula que vai perder com clientes que não pagam), custo operacional de manter agências e funcionários, tributos específicos sobre operações de crédito, concentração do mercado em poucos bancos grandes, e sim, a margem de lucro. Quando a Selic sobe, o spread tende a subir também porque o risco de inadimplência aumenta (cliente com dívida fica mais apertado quando o juro básico está alto) e o custo de captação dos bancos sobe junto. Mas há um piso estrutural: mesmo com Selic baixa, o spread não desaparece. Ele reflete características do mercado de crédito brasileiro que persistem independentemente do ciclo monetário.
Para entender a magnitude desse piso estrutural, vale comparar com os Estados Unidos. O Bank Prime Rate, taxa de referência para tomadores de melhor qualidade creditícia nos EUA, está em 6,75% ao ano em março de 2026. O Fed Funds Rate, equivalente americano da Selic, está em 3,64% ao ano no mesmo período. O spread americano é de 3,11 pontos percentuais. Ressalva importante: o ICC brasileiro é custo médio de toda a carteira de crédito (bom pagador e ruim pagador junto), enquanto o Prime Rate americano é taxa para tomadores de primeira linha, empresas e pessoas físicas com histórico de crédito impecável. A comparação é de ordem de grandeza, não exata. Estruturas de risco, concentração bancária e inadimplência esperada diferem entre os países. Mas mesmo com essa ressalva, o fosso é acentuado: o spread brasileiro é 2,9 vezes maior que o americano.
O que um spread estruturalmente alto significa na prática é que reduzir apenas a Selic não resolve o problema do crédito caro. Se a Selic caísse para um patamar significativamente mais baixo, o spread não desapareceria. Os bancos ainda cobrariam algo próximo aos 9,10 pontos percentuais por causa do risco embutido na carteira, da concentração do mercado (cinco bancos controlam mais de 80% do crédito no país), e dos tributos que incidem sobre operações financeiras. O crédito seguiria caro em termos absolutos. Isso não quer dizer que a Selic não importa, importa muito. Uma Selic mais baixa reduz o custo de captação dos bancos e alivia a pressão sobre a inadimplência, o que tende a comprimir o spread. Mas indica que há um problema estrutural de oferta de crédito no Brasil que a política monetária sozinha não resolve.
Regulação bancária que incentive competição, redução de concentração via entrada de novos players, queda de inadimplência esperada por meio de cadastro positivo mais eficiente, e redução de tributos sobre crédito são fatores que operariam no spread independentemente do nível da Selic. Esses fatores estruturais explicam por que, mesmo em períodos de Selic relativamente baixa (como entre 2017 e 2019, quando a taxa básica ficou em 6,50% ao ano), o spread brasileiro permaneceu elevado em comparação internacional. O padrão de um spread estruturalmente alto em relação ao mundo desenvolvido é recorrente na história do crédito brasileiro, não apenas reflexo de taxa básica elevada.
Em março de 2026, quando esses dados foram medidos, a Selic estava em 15,00% e o spread em 9,10 pontos percentuais. A razão de 2,9 vezes entre o spread brasileiro e o americano sugere que o componente estrutural é relevante e persistente. Para o tomador de crédito, isso significa que esperar apenas por cortes da Selic não é suficiente para ver o custo do financiamento cair de forma proporcional. Para o investidor, indica que a rentabilidade do setor bancário brasileiro tem um colchão estrutural que não depende apenas do ciclo de juros.