Spread bancário chega a 9,1 pontos percentuais acima da Selic
A Selic em 15,00% ao ano é apenas o piso do custo do crédito no Brasil.
A Selic em 15,00% ao ano é apenas o piso do custo do crédito no Brasil. Acima dela, o Indicador de Custo do Crédito (ICC) marca 24,10% ao ano em março de 2026, refletindo o que o sistema bancário efetivamente cobra nas modalidades de pessoa física e jurídica. No topo dessa pirâmide está o cartão rotativo, cobrado a 26,61% ao mês, escala incomparável com as taxas anuais das camadas anteriores.
O spread sistêmico de 9,1 pontos percentuais entre o ICC e a Selic representa tudo aquilo que não é custo básico de captação. Nele estão embutidos a inadimplência esperada (quanto o banco calcula que vai perder com clientes que não pagam), custos operacionais (pessoal, tecnologia, agências), tributos (IOF, PIS, COFINS) e a margem de lucro do intermediário. Esse spread não é lucro puro do banco. É o custo total de estar no negócio de crédito, e sua magnitude revela a distância entre o que o Banco Central define como taxa básica e o que o tomador final efetivamente paga.
A Selic representa 62,24% do ICC. Os 37,76% restantes, ou seja, aqueles 9,1 pontos percentuais, são custo sistêmico puro. O sistema bancário adiciona quase tanto quanto o Banco Central cobra. Isso não significa que todos os clientes pagam 24,10%. O ICC é média ponderada de todas as modalidades. Pessoa jurídica com operação pré-fixada paga menos. Pessoa física em cartão rotativo paga muito mais. O spread mascara essa heterogeneidade, mas a média revela o padrão: o custo de intermediação no Brasil é estruturalmente alto.
Para entender a magnitude desse spread, vale comparar com economias desenvolvidas. Nos Estados Unidos, o spread típico entre a taxa básica do Fed e o custo médio do crédito ao consumidor fica entre 3 e 5 pontos percentuais. No Brasil, mesmo em períodos de estabilidade, o spread raramente cai abaixo de 7 pontos. A diferença não é só conjuntural. Reflete inadimplência estruturalmente mais alta, sistema tributário que incide sobre operações de crédito, custo de compliance elevado e concentração bancária que permite manutenção de margens robustas.
Em 12 meses, o ICC subiu 1,52 ponto percentual. Enquanto a Selic se manteve estável em patamares elevados, o spread bancário abriu. Isso sinaliza pressão crescente sobre o custo do crédito mesmo sem movimento na taxa básica. A defasagem entre decisão de política monetária e ajuste de taxas de crédito é real. Os números de março de 2026 refletem decisões de precificação de fevereiro e antes, porque os bancos ajustam suas tabelas com lag de 30 a 60 dias após mudanças na Selic. Mas a tendência está clara: o sistema está cobrando mais spread, não menos.
Essa abertura do spread em ambiente de Selic estável sugere que os bancos estão precificando risco adicional ou protegendo margem diante de expectativa de deterioração na qualidade da carteira. Quando a inadimplência sobe, o spread abre antes mesmo de a inadimplência aparecer nos balanços, porque os modelos de risco antecipam perdas futuras. O ICC de março já embute essa precificação defensiva, mesmo que os números consolidados de inadimplência do sistema ainda não tenham se deteriorado de forma dramática.
Para quem toma crédito, essa leitura é direta: o custo de emprestar não cai na mesma velocidade que a Selic. Se o Banco Central começar a cortar juros, o spread pode abrir ainda mais antes de fechar, porque os bancos protegem margem. Se o spread continuar abrindo enquanto a Selic fica parada, o custo real do crédito sobe independentemente do que o Copom faz. A relação entre Selic e ICC não é mecânica nem instantânea. Há defasagem, há mix de carteira, há decisão de risco de cada instituição. O dado de março de 2026 mostra onde estamos, não para onde vamos, mas a trajetória recente indica que o crédito está ficando mais caro em termos relativos, mesmo com a taxa básica ancorada.