Inadimplência no cartão rotativo atinge patamar recorde em cinco anos
A inadimplência superior a 90 dias no cartão de crédito rotativo para pessoas físicas atingiu 4,44% em abril de 2026, o maior
A inadimplência superior a 90 dias no cartão de crédito rotativo para pessoas físicas atingiu 4,44% em abril de 2026, o maior nível observado em uma janela de cinco anos. Esta modalidade, que se caracteriza como a linha de crédito mais cara disponível para o consumidor no mercado brasileiro, registrou taxa média de juros de 26,64% ao mês na mesma data, conforme dados do Banco Central.
O cartão rotativo funciona como um mecanismo de emergência no orçamento doméstico. Quando o cliente não consegue quitar o valor total da fatura até o vencimento, o saldo remanescente migra automaticamente para o rotativo, onde incide a taxa de 26,64% ao mês. Esse custo elevado reflete o risco da operação, a ausência de garantias reais e o perfil de uso em situações de necessidade imediata. Diferente do parcelado, em que o consumidor negocia previamente as condições de pagamento, o rotativo é acionado por inadimplência involuntária, o que torna a inadimplência nesta modalidade um termômetro sensível para o balanço das famílias.
A taxa de 26,64% ao mês equivale a aproximadamente 1.900% ao ano em juros compostos, patamar que torna praticamente impossível a quitação da dívida sem renegociação ou migração para outra linha de crédito. A regulação do Banco Central limita a permanência no rotativo a 30 dias, após os quais o saldo deve ser parcelado em condições menos onerosas, mas a inadimplência superior a 90 dias indica que parte dos clientes não consegue sequer acessar essa renegociação, seja por desconhecimento, seja por incapacidade de pagamento mesmo nas condições parceladas.
O atraso no cartão rotativo supera em 1,60 ponto percentual a inadimplência agregada da carteira de crédito total das famílias, que se encontra em 2,84% em abril de 2026. A razão de 1,56 entre o atraso do cartão e o agregado da carteira de pessoas físicas indica que o segmento de rotativo é significativamente mais sensível ao estresse financeiro do que a média dos demais produtos de crédito. Enquanto modalidades como crédito consignado e financiamento imobiliário operam com inadimplência inferior a 2%, o rotativo concentra o risco de clientes que já esgotaram outras alternativas de crédito.
Nos últimos 12 meses, o atraso do cartão rotativo avançou 0,94 ponto percentual, enquanto o atraso total da carteira de pessoas físicas subiu 0,38 ponto percentual. O movimento aponta para um cenário em que o cartão lidera a alta da inadimplência, evidenciando uma pressão crescente no segmento de maior risco. A taxa de juros do rotativo apresentou queda de 1,42 ponto percentual no mesmo período, mas o custo nominal permanece em patamares que dificultam a reestruturação de dívidas vencidas. A redução da taxa, embora relevante, não foi suficiente para reverter a trajetória de alta da inadimplência, sugerindo que o problema está mais relacionado à capacidade de pagamento das famílias do que ao custo do crédito em si.
Historicamente, o comportamento da inadimplência no cartão rotativo funciona como um indicador antecedente de estresse no balanço das famílias. Quando o atraso nesta modalidade se eleva de forma persistente, o movimento tende a preceder o aumento da inadimplência agregada em um horizonte de um a dois trimestres. O dado atual, no percentil 100 da janela de cinco anos, sinaliza tendência de maior cautela na qualidade do crédito, refletindo as dificuldades de parte das famílias em manter o equilíbrio financeiro sob o peso dos juros elevados e da inflação acumulada.
Para o sistema financeiro, a inadimplência no rotativo representa perda direta, já que a ausência de garantias impede a recuperação de valores via execução de bens. Os bancos respondem a esse cenário com aperto nas condições de concessão de crédito, reduzindo limites e elevando exigências de renda comprovada, o que tende a restringir ainda mais o acesso ao crédito para famílias de menor renda. Para o consumidor, o atraso no rotativo gera não apenas o acúmulo de juros sobre juros, mas também a inclusão em cadastros de restrição de crédito, dificultando o acesso a financiamentos futuros e perpetuando o ciclo de endividamento.