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Inadimplência do cartão rotativo atinge nível mais alto em 5 anos

Atraso superior a 90 dias chega a 63,03% do saldo enquanto taxa média recua 16,72 pontos percentuais em 12 meses.

O cartão de crédito rotativo para pessoa física operava em 1º de maio de 2026 com taxa média de 439,87% ao ano e atraso superior a 90 dias em 63,03% do saldo devedor. Esse patamar de inadimplência coloca a série no percentil 97 da janela de 5 anos, ou seja, entre os níveis mais elevados registrados desde maio de 2021. A modalidade rotativa é historicamente a mais cara do mercado de crédito brasileiro, com taxas que oscilam entre patamares extremos conforme o ciclo de política monetária e a percepção de risco dos bancos.

O cartão rotativo funciona como linha de crédito aberta e renovável. Diferente do parcelado, em que o cliente contrata um valor fixo e paga em prestações definidas, o rotativo permite usar o limite disponível, pagar juros sobre o saldo devedor e rolar a dívida mês a mês sem prazo determinado para quitação. Essa flexibilidade tem custo elevado porque concentra risco de crédito: não há garantia real, não há prazo contratual que force o pagamento, e o perfil do tomador é tipicamente de quem já esgotou outras fontes de financiamento. O banco embute no preço da operação a inadimplência esperada, o custo de captação e a probabilidade de calote, resultando em taxas que superam em larga margem qualquer outra modalidade de crédito à pessoa física.

A inadimplência de 63,03% no rotativo contrasta fortemente com o atraso agregado da carteira de pessoa física, que está em 5,62%. A diferença é de 57,41 pontos percentuais. Em termos relativos, o rotativo é 11,22 vezes mais inadimplente que a média do balanço de crédito PF. Essa discrepância não é anomalia estatística, é característica estrutural da modalidade. O cliente permanece em média 30 dias no rotativo antes de migrar para renegociação, parcelamento ou default definitivo. A carteira é pequena em volume e concentrada em devedores que já não conseguiram pagar a fatura integral. Por isso, a taxa de atraso superior a 90 dias tende a ser naturalmente elevada, refletindo a natureza emergencial do produto.

O que chama atenção no dado de maio de 2026 não é o nível absoluto da inadimplência, mas a trajetória recente. Em 12 meses, o atraso do cartão rotativo subiu 4,43 pontos percentuais. No mesmo período, o atraso agregado da carteira PF subiu apenas 1,38 pontos percentuais. O rotativo está se deteriorando três vezes mais rápido que o restante do crédito à pessoa física. Esse descolamento sugere que o stress financeiro das famílias está se manifestando primeiro na modalidade de emergência, antes de contaminar o restante do balanço.

Enquanto a inadimplência subia, a taxa média do cartão rotativo caiu 16,72 pontos percentuais nos últimos 12 meses. A queda de preço do crédito, portanto, não reverteu o aumento do atraso. Isso aponta para fator de renda ou desemprego operando independentemente do custo do crédito. Quando o barateamento da modalidade não impede a piora da inadimplência, a interpretação mais provável é que o problema está na capacidade de pagamento das famílias, não no preço do dinheiro. O cliente que entra no rotativo em maio de 2026 paga menos juros que pagaria um ano atrás, mas ainda assim não consegue sair da dívida.

O cartão rotativo funciona historicamente como termômetro antecedente do stress doméstico. Quando o atraso do rotativo sobe, o atraso agregado da carteira PF tende a acompanhar em um a dois trimestres. A lógica é simples: o rotativo é o último recurso antes do default. Quem aperta no rotativo costuma apertar no financiamento do carro, no crédito consignado e no cheque especial logo depois. A série histórica confirma esse padrão de contágio. O indicador está aceso: o atraso do rotativo já está em nível elevado e em tendência de alta, enquanto o atraso agregado ainda está contido em 5,62%. A diferença de 57,41 pontos percentuais entre as duas séries tende a fechar nos próximos meses, seja porque o rotativo melhora, seja porque o agregado piora. A segunda hipótese é mais provável dado o movimento dos últimos 12 meses.

Para o investidor que acompanha o ciclo de crédito, o dado de maio de 2026 sinaliza que o stress das famílias está em estágio avançado na modalidade de emergência e pode estar migrando para o restante da carteira. Para o tomador de crédito, o recado é que o barateamento do rotativo não resolve o problema de quem já está endividado, apenas adia o ajuste. A inadimplência no percentil 97 da janela de 5 anos não é ponto de inflexão isolado, é confirmação de tendência.

Fonte. BCB_TAXA_JUROS_CARTAO_ROTATIVO_PF · BCB_ATRASO_CARTAO_ROTATIVO_PF · BCB_ATRASO_TOTAL_PF Reportar erro

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