Disparidade entre reservatórios do SIN atinge 44,76 pontos percentuais
Os níveis de energia armazenada no Sistema Interligado Nacional apresentam uma configuração de desequilíbrio regional acentuado em 23/05/2026.
Os níveis de energia armazenada no Sistema Interligado Nacional apresentam uma configuração de desequilíbrio regional acentuado em 23/05/2026. Enquanto o subsistema Norte opera com 97,35% de sua capacidade máxima e o Nordeste registra 94,23%, as regiões Sul e Sudeste/Centro-Oeste enfrentam patamares significativamente inferiores, com 52,59% e 65,95%, respectivamente. A diferença entre o reservatório mais cheio e o mais crítico alcança 44,76 pontos percentuais, magnitude que exige atenção sobre a capacidade de transmissão entre subsistemas e a estratégia de despacho do Operador Nacional do Sistema.
Essa heterogeneidade reflete a diversidade de regimes hidrológicos e climáticos que compõem o território brasileiro. O SIN é dividido em quatro subsistemas interligados por linhas de transmissão que permitem o compartilhamento de energia entre regiões. Quando um subsistema tem reservatórios cheios e outro opera em níveis baixos, a transmissão de energia entre eles se torna crítica para evitar o acionamento de usinas termelétricas, que custam mais caro e pressionam as tarifas. A capacidade de transmissão, porém, tem limites físicos. Linhas congestionadas ou insuficientes podem impedir que a energia abundante do Norte chegue ao Sudeste, forçando o despacho térmico mesmo com água disponível em outras bacias.
O regime de chuvas dos últimos 30 dias, encerrados em 23/05/2026, explica parte dessa distribuição desigual de armazenamento. O subsistema Norte acumulou 437,7 milímetros de precipitação no período, volume robusto que sustenta os reservatórios próximos da capacidade máxima. O Nordeste registrou 232,6 milímetros, quantidade suficiente para manter os níveis elevados em uma região historicamente mais seca. No Sul, o volume acumulado foi de 183,4 milímetros, abaixo da média histórica para o período e insuficiente para recuperar os reservatórios que operam em 52,59%. O Sudeste/Centro-Oeste, região que concentra cerca de 70% da capacidade instalada do sistema, apresentou apenas 40,3 milímetros no mesmo período, o menor volume entre os quatro subsistemas e um dos fatores que explicam o nível de 65,95%.
A relação entre chuvas e armazenamento não é direta. Reservatórios grandes, como os do Sudeste, dependem de chuvas consistentes ao longo de meses para recuperar níveis. Um mês seco não esvazia um reservatório cheio, mas um trimestre seco pode comprometer a segurança energética. O inverso também vale: chuvas intensas em um único mês não enchem reservatórios vazios se o solo estiver seco e a evaporação for alta. O dado de 40,3 milímetros no Sudeste/Centro-Oeste nos últimos 30 dias indica que a região está em período de estiagem, típico do outono brasileiro, mas a magnitude da diferença em relação ao Norte (437,7 milímetros) evidencia um descompasso climático que o sistema precisa administrar.
O nível de armazenamento é um dos componentes centrais que definem o custo de operação do sistema elétrico brasileiro. Reservatórios em níveis baixos tendem a exigir o acionamento de usinas termelétricas, que possuem um custo de geração superior ao das hidrelétricas. Esse movimento de despacho térmico, quando necessário para garantir a segurança energética, pressiona os custos setoriais, o que eventualmente pode refletir nas bandeiras tarifárias e no IPCA energia. A bandeira tarifária é o mecanismo que repassa ao consumidor final o custo adicional de geração térmica. Quando os reservatórios estão cheios, a bandeira tende a ser verde (sem custo extra). Quando estão baixos e o ONS precisa acionar térmicas, a bandeira sobe para amarela ou vermelha, adicionando valores à conta de luz.
O cenário atual, com reservatórios robustos nas regiões Norte e Nordeste em paralelo a níveis mais contidos nas regiões Sul e Sudeste/Centro-Oeste, exige monitoramento constante sobre a capacidade de transmissão e a eficiência na gestão dos recursos hídricos disponíveis. A interligação entre subsistemas permite que energia gerada no Norte seja transmitida para o Sudeste, mas essa transferência tem limites técnicos e perdas ao longo das linhas. Se a demanda no Sudeste crescer acima da capacidade de transmissão disponível, o ONS será forçado a despachar térmicas locais mesmo com água sobrando no Norte. A disparidade de 44,76 pontos percentuais entre subsistemas não é, por si só, um problema, mas se torna crítica quando a capacidade de transmissão não acompanha a necessidade de transferência de energia entre regiões.