Reservatórios do Norte e Nordeste operam acima de 94% da capacidade
Os níveis de energia armazenada no Sistema Interligado Nacional (SIN) apresentam uma configuração de desequilíbrio regional em 21/05/2026.
Os níveis de energia armazenada no Sistema Interligado Nacional (SIN) apresentam uma configuração de desequilíbrio regional em 21/05/2026. O subsistema Norte lidera a disponibilidade hídrica com 97,20% de sua capacidade máxima, acompanhado de perto pelo Nordeste, que registra 94,27%. Em contraste, o Sudeste/Centro-Oeste, que concentra cerca de 70% da capacidade total de armazenamento do país, opera com 65,88%, enquanto o Sul apresenta o nível mais crítico, com 51,41%.
A disparidade entre o subsistema mais cheio e o mais crítico atinge 45,79 pontos percentuais nesta data. Essa heterogeneidade reflete as características distintas das bacias hidrográficas brasileiras e a distribuição desigual das chuvas, que compõem o principal insumo para a recomposição dos reservatórios. A diferença de quase 46 pontos percentuais entre Norte e Sul é expressiva mesmo para um país de dimensões continentais, e sinaliza que o sistema opera com flexibilidade operacional reduzida nas regiões mais críticas.
A energia armazenada (EAR) é medida em percentual da capacidade máxima de cada subsistema. Quando os reservatórios estão cheios, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) tem margem para despachar usinas hidrelétricas, que possuem custo marginal de operação próximo de zero, uma vez que a água já está represada. Quando os níveis caem, o ONS precisa acionar usinas termelétricas, que queimam gás natural, carvão ou óleo diesel para gerar eletricidade. O custo dessas térmicas é significativamente superior ao das hidrelétricas, e esse custo adicional se reflete na bandeira tarifária cobrada na conta de luz do consumidor final.
O regime de chuvas nos últimos 30 dias, encerrados em 21/05/2026, mostra volumes expressivos em regiões que sustentam os níveis mais altos de EAR. O Norte acumulou 453,9 milímetros de precipitação no período, em sintonia com o patamar elevado de seus reservatórios. No Nordeste, o acumulado atingiu 245,0 milímetros. Em paralelo a esses volumes, o Sul registrou 170,4 milímetros, enquanto o Sudeste/Centro-Oeste apresentou o menor volume entre os subsistemas, com 36,4 milímetros de chuva acumulada.
A concentração de chuvas no Norte e Nordeste explica por que esses subsistemas operam próximos da capacidade máxima, mas não resolve o problema estrutural do sistema como um todo. O Sudeste/Centro-Oeste responde por cerca de 70% da capacidade de armazenamento do SIN e por parcela ainda maior da demanda de energia do país. Quando essa região opera com reservatórios abaixo de 70%, a margem de segurança do sistema se estreita, mesmo que Norte e Nordeste estejam cheios. A interligação entre subsistemas permite transferir energia de uma região para outra, mas essa transferência tem limites técnicos e custos de transmissão que crescem com a distância.
O Sul, com 51,41% de EAR, está na faixa que historicamente acende o alerta operacional. Níveis abaixo de 60% nesse subsistema costumam coincidir com aumento do despacho térmico e pressão sobre a bandeira tarifária. O volume de chuva acumulado no Sul nos últimos 30 dias, de 170,4 milímetros, é intermediário, mas insuficiente para reverter a trajetória de esvaziamento dos reservatórios em ritmo que traga alívio imediato.
O nível dos reservatórios é um indicador fundamental para a segurança energética e para a inflação. Quando a capacidade de armazenamento está baixa, o sistema perde flexibilidade operacional, o que pode exigir o despacho de usinas termelétricas para suprir a demanda. O aumento do uso de térmicas, que possuem custo de geração superior às hidrelétricas, tende a pressionar a bandeira tarifária e, consequentemente, o IPCA energia ao longo do tempo. A bandeira vermelha patamar 2, que adiciona R$ 7,877 a cada 100 kWh consumidos, é acionada justamente quando o custo marginal de operação do sistema sobe acima de determinado limiar, reflexo direto do despacho térmico intenso.
A configuração atual, com Norte e Nordeste cheios e Sudeste/Centro-Oeste e Sul em níveis mais baixos, sugere que o sistema depende da interligação para equilibrar oferta e demanda. Se as chuvas não voltarem em volume suficiente nas regiões mais críticas nos próximos meses, o risco de acionamento térmico prolongado aumenta, com impacto direto na conta de luz e no índice de inflação.