Real valoriza 4,80% em quatro meses enquanto café arábica recua 26,20% no mesmo período
O real acumulou valorização de 4,80% frente ao dólar comercial entre 22 de janeiro e 29 de maio de 2026, movimento que
O real acumulou valorização de 4,80% frente ao dólar comercial entre 22 de janeiro e 29 de maio de 2026, movimento que não se traduziu em comportamento uniforme nas principais commodities agrícolas brasileiras. O café arábica registrou queda acentuada de 26,20% no mesmo intervalo, a maior retração entre os produtos monitorados pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (CEPEA) da ESALQ-USP, enquanto soja, milho e açúcar seguiram trajetórias próprias, com correlações que variam de moderadas a praticamente nulas em relação ao câmbio.
A correlação de Pearson mede o grau de associação linear entre duas séries de variações diárias, oscilando entre -1 (movimento perfeitamente inverso) e +1 (movimento perfeitamente sincronizado). Valores próximos de zero indicam independência estatística, ou seja, as duas variáveis se movem sem relação aparente uma com a outra. No caso das commodities agrícolas, a correlação com o câmbio revela quanto do movimento de preços pode ser atribuído à oscilação da moeda e quanto responde a fatores setoriais específicos, como safra, demanda externa, clima e estoques.
A soja Paranaguá, referência para exportação, apresentou variação de 0,60% na janela de 87 dias úteis e correlação de 0,45 com a taxa de câmbio. Esse coeficiente indica associação moderada: em cerca de metade dos dias, a soja e o real se moveram na mesma direção, sugerindo que a valorização da moeda exerceu alguma pressão baixista sobre os preços em reais, mas outros fatores, como cotação internacional e prêmio de exportação, também pesaram. O milho ESALQ recuou 2,71% no período e exibiu correlação de 0,21, mais fraca que a da soja, sinalizando que a dinâmica doméstica de oferta e demanda, incluindo a segunda safra e o consumo interno para ração, teve peso maior que o câmbio na formação de preços.
O açúcar SP acumulou queda de 6,09% em 86 dias úteis e apresentou correlação de -0,02 com a variação cambial, valor estatisticamente indistinguível de zero. Isso significa que o movimento do real não explicou praticamente nada do comportamento do açúcar no período. O setor sucroalcooleiro responde a variáveis próprias: mix de produção entre açúcar e etanol, cotação internacional da commodity em Nova York, preço do petróleo (que afeta a competitividade do etanol) e decisões de usinas sobre estocagem. A ausência de correlação reforça que o câmbio, embora relevante para a competitividade exportadora no longo prazo, não foi vetor determinante dos preços domésticos do açúcar entre janeiro e maio de 2026.
O café arábica, que acumulou a maior retração entre os itens analisados, manteve correlação de apenas 0,09 com a variação cambial, também próxima de zero. A queda de 26,20% reflete fatores fundamentais do mercado cafeeiro: expectativa de safra robusta no Brasil, maior ofertante mundial, pressão de estoques remanescentes da safra anterior e eventual arrefecimento da demanda externa. A valorização do real, que em tese tornaria o café brasileiro mais caro em dólares e menos competitivo, não foi suficiente para conter a queda de preços em reais, indicando que o excesso de oferta dominou a formação de preços no período.
A análise utiliza base de 87 dias úteis comuns para soja, milho e café, e 86 dias úteis para o açúcar, devido a diferenças no calendário de divulgação do CEPEA. Correlações calculadas sobre janelas de três a quatro meses capturam movimentos de curto e médio prazo, mas tendem a ganhar robustez estatística conforme o histórico temporal se expande. O padrão observado entre janeiro e maio de 2026 sugere que a valorização do real não foi vetor único para o comportamento das commodities agrícolas. Enquanto alguns produtos mantiveram correlação positiva moderada, outros seguiram trajetórias independentes, reforçando a necessidade de olhar para as especificidades de cada cultura ao analisar a formação de preços no campo.