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Valorização de 4,37% do real não impediu queda de 27% no café arábica

Entre 23 de janeiro e 29 de maio de 2026, o dólar comercial recuou 4,37% frente ao real, movimento que deveria, em

Entre 23 de janeiro e 29 de maio de 2026, o dólar comercial recuou 4,37% frente ao real, movimento que deveria, em tese, pressionar para baixo os preços domésticos das commodities agrícolas cotadas em dólar no mercado internacional. Na prática, o comportamento dos quatro principais indicadores do CEPEA (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da ESALQ-USP) mostrou trajetórias independentes, com o café arábica despencando 27,15% no período, o açúcar em São Paulo recuando 6,09%, o milho ESALQ cedendo 2,58%, e apenas a soja negociada em Paranaguá subindo 1,13%.

A correlação de Pearson entre as variações diárias da PTAX (taxa de câmbio de referência do Banco Central) e cada commodity na janela de 86 dias úteis revela o grau de descolamento. A soja apresentou r=0,45, o que indica associação moderada entre a moeda e o grão. Correlação positiva nessa faixa sugere que, em parte dos pregões, a valorização do real coincidiu com alta da soja doméstica, contrariando a lógica simples de que real forte derruba preço interno de produto exportável. O milho registrou r=0,21, correlação fraca que aponta para movimentos quase independentes. Já o café arábica (r=0,10) e o açúcar (r=-0,01) praticamente não responderam ao câmbio, sinalizando que fundamentos setoriais específicos dominaram a formação de preços.

A queda de 27,15% no café arábica é o movimento mais acentuado da janela e merece contexto. O indicador CEPEA de café arábica reflete o preço pago ao produtor no mercado físico brasileiro, influenciado por safra, estoque, demanda internacional e especulação nas bolsas de Nova York e Londres. Quando o café cai dessa magnitude em quatro meses, mesmo com o real se valorizando, o sinal é de excesso de oferta ou de retração de demanda externa, fatores que superam qualquer efeito cambial. A correlação próxima de zero (r=0,10) confirma que o câmbio não foi variável relevante para o café nesse período.

O açúcar em São Paulo, com queda de 6,09% e correlação de r=-0,01, apresenta descolamento ainda mais evidente. Correlação negativa próxima de zero indica que não há relação linear entre as variações diárias da PTAX e do indicador CEPEA de açúcar. O preço do açúcar doméstico responde a safra de cana, mix açúcar-etanol (decisão das usinas sobre o que produzir), cotação internacional em Nova York (contrato 11) e políticas de combustível no Brasil. A valorização do real não se traduziu em pressão baixista sobre o açúcar porque esses outros fatores exerceram influência superior.

O milho ESALQ, com recuo de 2,58% e correlação de r=0,21, situa-se em zona intermediária. A queda moderada do preço doméstico ocorreu em paralelo à valorização do real, mas a correlação fraca sugere que o câmbio explicou apenas parte do movimento. Milho é commodity de ciclo curto, com safra de verão (primeira safra) e safrinha (segunda safra), e o período de 23 de janeiro a 29 de maio de 2026 captura justamente a transição entre essas duas colheitas. Oferta doméstica abundante e demanda interna estável (ração animal, etanol de milho) tendem a pesar mais que o câmbio na formação de preço.

A soja negociada em Paranaguá, única commodity com alta na janela (1,13%), apresenta correlação de r=0,45, a mais forte entre as quatro. Soja é o grão mais internacionalizado do agronegócio brasileiro, com preço doméstico fortemente ancorado na cotação de Chicago (CBOT) e no prêmio de exportação. A correlação moderada sugere que, em parte dos pregões, a valorização do real coincidiu com alta da soja, possivelmente porque a demanda externa (China, principalmente) sustentou o preço internacional em dólar, compensando o efeito cambial. A janela de 86 dias úteis captura período de entressafra no Brasil e safra nos Estados Unidos, dinâmica que afeta o prêmio de Paranaguá.

As correlações de Pearson calculadas pelo Elucidados a partir das variações diárias da PTAX e dos indicadores CEPEA tendem a ganhar robustez conforme o histórico de observações comuns entre os ativos se expande. A janela de 86 dias úteis (85 dias para o açúcar, devido a diferença de disponibilidade de dados) é suficiente para capturar padrões de curto prazo, mas não substitui análise de ciclo completo de safra. O CEPEA publica os indicadores no dia útil seguinte ao pregão, e a PTAX é divulgada pelo Banco Central após 13h10 de cada pregão, o que permite o cruzamento diário das séries.

O cenário descrito reforça que o câmbio, embora componente relevante na formação de preços de exportação, não atua como força motriz exclusiva para o setor agropecuário no curto prazo. A diversidade de comportamentos entre soja, milho, café e açúcar demonstra que fatores como safra, estoque, demanda internacional e políticas setoriais exercem influência superior à variação da moeda nacional. Para o produtor rural, a leitura prática é que hedge cambial protege apenas parte do risco de preço, e que acompanhar fundamentos específicos de cada cultura continua sendo a estratégia central de gestão.

Fonte. BCB_PTAX_USD · CEPEA_SOJA_PARANAGUA · CEPEA_MILHO Reportar erro