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Disparidade regional de reservatórios atinge 38 pontos percentuais em junho

Os níveis de energia armazenada no Sistema Interligado Nacional em 04/06/2026 revelam heterogeneidade acentuada entre as quatro regiões operacionais.

Os níveis de energia armazenada no Sistema Interligado Nacional em 04/06/2026 revelam heterogeneidade acentuada entre as quatro regiões operacionais. O Nordeste acumula 92,81% de sua capacidade máxima, o Norte está em 97,15%, o Sudeste/Centro-Oeste em 65,97% e o Sul em 59,11%. A diferença entre o subsistema mais cheio e o mais crítico alcança 38,04 pontos percentuais, refletindo bacias hidrográficas com regimes de chuva distintos e históricos de armazenamento desiguais.

Essa disparidade não é apenas um dado operacional. Ela determina quanto o país vai pagar pela energia que consome. O Sistema Interligado Nacional funciona como um pool integrado, onde a energia gerada em qualquer ponto pode, em tese, abastecer qualquer região. Mas a transmissão tem limites físicos. Quando o Nordeste e o Norte transbordam enquanto o Sudeste opera com folga reduzida, a energia excedente do Norte não consegue fluir integralmente para o Sudeste porque as linhas de transmissão entre subsistemas têm capacidade limitada. O resultado é que o Operador Nacional do Sistema precisa acionar termelétricas no Sudeste mesmo havendo água sobrando em outras bacias, elevando o custo marginal de operação e pressionando a bandeira tarifária.

O Sudeste/Centro-Oeste, que concentra aproximadamente 70% da capacidade total do SIN, opera em patamar acima da média histórica recente, mas abaixo da zona de conforto operacional que costuma situar-se em 70% ou superior. Quando esse subsistema dominante funciona em níveis menores, a operação tende a acionar mais geradores termelétricos para compensar a geração hidrelétrica reduzida. Termelétricas queimam gás natural, diesel ou carvão, combustíveis cujo custo é repassado ao consumidor via bandeira tarifária. Essa pressão de custo eventualmente se reflete no componente energia do IPCA, especialmente quando o acionamento térmico se estende por semanas consecutivas.

Gráfico
Energia armazenada do Sudeste/Centro-Oeste (% do máximo), últimos 365 dias
67,2058,1449,0840,03 63,38 08/11 02/02 30/04 26/07
Fonte. ONS

O regime de chuvas dos últimos 30 dias, encerrando em 04/06/2026, mostra padrão regional esperado para o período. O Norte acumulou 381,9 milímetros de chuva média entre suas cidades cobertas pelo Open-Meteo, enquanto o Nordeste registrou 227,2 milímetros. Ambos os subsistemas operam com reservatórios transbordando, em sintonia com o regime úmido que caracteriza essas bacias no semestre. O Sudeste/Centro-Oeste, por sua vez, recebeu apenas 34,0 milímetros de chuva agregada, e o Sul 123,5 milímetros, volumes alinhados com seus níveis de armazenamento mais baixos. A distribuição regional de chuva está sendo refletida nos estoques de energia, em paralelo ao ciclo climático esperado para junho.

Essa assimetria pluviométrica é estrutural. O Norte e o Nordeste têm regime de chuvas concentrado no primeiro semestre, com picos entre fevereiro e maio. O Sudeste e o Sul, ao contrário, dependem das chuvas de verão, entre outubro e março. Junho marca o início da estação seca no Sudeste, quando os reservatórios param de encher e começam a ser consumidos pela geração. O que determina se haverá aperto no segundo semestre é quanto de água ficou acumulada até maio. Com o Sudeste em 65,97% e o Sul em 59,11%, a margem de segurança existe, mas não é folgada.

Gráfico
Energia armazenada do Nordeste (% do máximo), últimos 365 dias
96,5379,0361,5344,02 84,78 08/11 02/02 30/04 26/07
Fonte. ONS

O Sul, com 59,11% de armazenamento, é o subsistema mais crítico do momento. Embora acima dos patamares de racionamento, que historicamente começam a ser considerados abaixo de 20% a 30%, opera em zona que demanda monitoramento. A bacia do Sul é a mais volátil do sistema, com reservatórios menores e regime de chuvas irregular. Quando o Sul aperta, o ONS precisa importar energia do Sudeste via interligação, o que reduz a folga do subsistema dominante e amplifica o risco de acionamento térmico em cadeia. Chuvas futuras nessa bacia serão determinantes para evitar pressão adicional sobre a operação térmica regional.

Gráfico
Energia armazenada do Sul (% do máximo), últimos 365 dias
94,5272,7050,8829,06 83,70 08/11 02/02 30/04 26/07
Fonte. ONS

O padrão de disparidade entre regiões não é novidade operacional, mas sua magnitude atual merece atenção. Diferenças acima de 30 pontos percentuais entre subsistemas costumam indicar restrição de transmissão ativa, cenário em que o ONS opera com despacho sub-ótimo, acionando térmica cara no Sul e no Sudeste enquanto verte água no Norte. Esse vertimento, quando ocorre, é energia desperdiçada, água que passa pelas turbinas sem gerar porque não há demanda local nem capacidade de transmissão para escoar o excedente. A disparidade de 38,04 pontos percentuais entre o Norte e o Sul sugere que esse padrão está em curso.

Os próximos 30 dias de regime pluviométrico, especialmente no Sudeste e no Sul, dirão se essa disparidade se reduz ou se persiste, alterando o custo de operação do sistema como um todo. Se as chuvas de inverno no Sul vierem abaixo da média histórica, o subsistema pode cair para níveis que forcem importação contínua do Sudeste, pressionando a bandeira tarifária nacionalmente. Se vierem dentro da média, a situação se estabiliza sem custo adicional relevante. O dado de 04/06/2026 é um retrato do momento, não uma previsão, mas indica que o sistema está operando com margem apertada no Sul e no Sudeste, enquanto Norte e Nordeste seguem transbordando sem conseguir aliviar a pressão nas regiões deficitárias.

Fonte. ONS · EAR Diário por Subsistema (dados.ons.org.br) Reportar erro

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