Disparidade entre subsistemas do SIN atinge 39,56 pontos percentuais em junho
O Sistema Interligado Nacional apresenta em 09/06/2026 um quadro de heterogeneidade acentuada entre seus quatro subsistemas.
O Sistema Interligado Nacional apresenta em 09/06/2026 um quadro de heterogeneidade acentuada entre seus quatro subsistemas. O Sudeste/Centro-Oeste, dominante com cerca de 70% da capacidade instalada de armazenamento, opera com 65,63% de sua energia armazenada disponível. O Nordeste está em 92,22%, o Norte em 97,75%, e o Sul em 58,19%. A diferença entre o subsistema mais cheio (Norte) e o mais crítico (Sul) chega a 39,56 pontos percentuais, o maior desequilíbrio observado até agora em 2026.
Essa disparidade reflete a geografia das bacias hidrográficas brasileiras e os regimes de chuva distintos em cada região. Norte e Nordeste, alimentados por precipitação abundante característica do período, mantêm reservatórios em níveis confortáveis. Sudeste e Sul, por sua vez, enfrentam pressão de esvaziamento. O padrão não é novo, mas a amplitude dele merece atenção. Quando um subsistema cai abaixo de 60% de capacidade, a operação do sistema começa a acionar usinas termelétricas com maior frequência, e isso tem implicações diretas na estrutura de custos da geração. Termelétricas queimam combustível fóssil (gás natural, óleo diesel, carvão) e são substancialmente mais caras de operar do que hidrelétricas, que dependem apenas da água já represada.
Os últimos 30 dias, encerrando em 09/06/2026, trouxeram regimes climáticos muito diferentes entre as regiões. O Nordeste acumulou 231,7 milímetros de chuva, enquanto o Norte registrou 345,3 milímetros, em sintonia com os níveis elevados de seus reservatórios. O Sudeste/Centro-Oeste, por outro lado, recebeu apenas 34,1 milímetros no mesmo período, e o Sul 90,8 milímetros. Essa precipitação insuficiente em relação à demanda de armazenamento explica por que o Sudeste permanece em zona intermediária e o Sul chegou ao nível mais crítico do sistema. A diferença de mais de dez vezes entre a chuva do Norte (345,3 milímetros) e a do Sudeste (34,1 milímetros) ilustra a magnitude do descompasso climático entre as regiões.
O subsistema Sul merece destaque particular. Com 58,19% de capacidade, ele está operando próximo ao limiar onde o acionamento de térmica se intensifica. Embora o Sul represente apenas cerca de 15% da capacidade total do SIN, uma operação prolongada em níveis baixos ali pressiona a estrutura de custos do sistema como um todo, porque o Operador Nacional do Sistema (ONS) precisa despachar geração térmica para compensar a hidrelétrica insuficiente. O Sudeste/Centro-Oeste, apesar de estar acima do patamar crítico de 60%, também não está em zona confortável. Historicamente, níveis acima de 75% são considerados seguros. Estar em 65,63% indica margem operacional reduzida, especialmente considerando que o Sudeste concentra a maior parte da demanda nacional e responde por cerca de 70% da capacidade de armazenamento do país.
A relação entre reservatório baixo e tarifa é indireta mas real. Quando os níveis caem, o ONS precisa acionar usinas termelétricas para suprir a demanda, porque a geração hidrelétrica não consegue sozinha. Essas usinas são mais caras de operar, e esse custo adicional eventualmente se reflete na bandeira tarifária que o consumidor paga na conta de luz. A bandeira vermelha, por exemplo, indica que o sistema está operando com custo elevado, e o adicional cobrado serve para cobrir o despacho térmico. O IPCA energia, por sua vez, acompanha essas variações. Neste momento, a heterogeneidade entre subsistemas significa que o sistema está usando uma mistura de fontes: hidrelétrica onde há água (Norte e Nordeste) e térmica onde há escassez (Sudeste e Sul). Essa mistura é mais cara do que um cenário onde todos os subsistemas estivessem em níveis confortáveis.
O quadro de junho/2026 não indica crise iminente, mas sinaliza que o sistema está operando com margem apertada nas regiões de maior demanda. O Sul, em particular, precisará de chuvas consistentes nas próximas semanas para evitar que o nível caia ainda mais. O Sudeste, embora em situação menos crítica, também depende de precipitação acima da média para recuperar a margem de segurança. Enquanto isso, Norte e Nordeste seguem com folga operacional, mas não podem sozinhos compensar a escassez nas outras regiões, porque a capacidade de transmissão entre subsistemas tem limites físicos. A interligação existe, mas não é ilimitada.