Reservatórios do Brasil mostram disparidade acentuada entre regiões
Norte e Nordeste operam cheios enquanto Sul enfrenta seca relativa e Sudeste fica em patamar intermediário.
Os quatro subsistemas do Sistema Interligado Nacional apresentam em 18 de junho de 2026 um quadro de forte heterogeneidade. O Nordeste opera a 90,84%, o Norte a 95,77%, o Sudeste/Centro-Oeste a 65,82% e o Sul a 56,20%. A diferença entre o subsistema mais cheio e o mais crítico chega a 39,57 pontos percentuais, refletindo bacias hidrográficas distintas e regimes de chuva muito diferentes entre as regiões.
Essa disparidade não é apenas um dado técnico. Ela determina o custo da energia que chega à casa do brasileiro e à indústria. Quando os reservatórios do Sul e do Sudeste/Centro-Oeste operam em níveis baixos, o Operador Nacional do Sistema Elétrico precisa acionar usinas termelétricas movidas a gás natural, carvão ou óleo diesel para compensar a falta de geração hidrelétrica. Essas térmicas custam até dez vezes mais por megawatt-hora do que uma hidrelétrica com reservatório cheio. O custo marginal de operação sobe, e isso se reflete na bandeira tarifária da conta de luz e, eventualmente, no IPCA de energia elétrica.
O Sudeste/Centro-Oeste concentra aproximadamente 70% da capacidade de armazenamento do SIN. Quando esse subsistema opera a 65,82%, como agora, o sistema ainda tem margem de manobra, mas não está confortável. O Sul, a 56,20%, opera em nível crítico para junho, mês em que historicamente os reservatórios dessa região já começam a sentir o peso da estiagem. A combinação de demanda elevada no inverno, quando o consumo de energia sobe por conta do aquecimento e da iluminação prolongada, com reservatórios baixos, pressiona o despacho térmico.
O Norte e o Nordeste, por outro lado, seguem com folga. O Norte a 95,77% está praticamente no teto de sua capacidade. O Nordeste a 90,84% também opera em patamar elevado. Esses dois subsistemas têm capacidade de armazenamento menor que o Sudeste/Centro-Oeste, mas neste momento do ano recebem chuva suficiente para manter os reservatórios cheios. A Zona de Convergência Intertropical, que atua sobre o Norte e o Nordeste entre março e julho, ainda está ativa em junho, trazendo precipitação regular.
Os últimos 30 dias, encerrando em 18 de junho de 2026, mostram padrão climático esperado para o hemisfério sul nesta época do ano. O Norte recebeu 256,2 milímetros de chuva agregada, o Nordeste 162,9 milímetros, o Sul 111,7 milímetros e o Sudeste/Centro-Oeste apenas 41,6 milímetros. O regime de chuva no Sudeste está em sintonia com a estiagem relativa que caracteriza este período, quando a monção sul-americana enfraquece e a massa de ar seco predomina sobre o interior do Brasil. O Norte e o Nordeste, por sua vez, ainda recebem influência da ZCIT, o que explica os volumes maiores.
A chuva dos últimos 30 dias é o input natural dos reservatórios, mas não determina imediatamente seu nível. Entre a precipitação e o armazenamento há lag de infiltração e escoamento que varia conforme a bacia. Uma chuva forte no alto da bacia do Paraná, por exemplo, leva dias para se transformar em afluência nas usinas de Furnas ou Itaipu. O nível de 18 de junho reflete o acumulado de meses anteriores e a operação do SIN como um todo, que redistribui energia entre subsistemas via linhas de transmissão. Sem comparativo de chuva com o mesmo período do ano passado, não é possível afirmar se o regime atual é atípico ou apenas sazonal.
O que importa para o leitor é que reservatórios baixos no Sudeste/Centro-Oeste e no Sul tendem a pressionar o custo da geração de energia. Quando a térmica entra em operação com mais frequência, o custo marginal da eletricidade sobe. Esse custo marginal é o que define a bandeira tarifária, o adicional cobrado na conta de luz quando o sistema opera em condições mais caras. Bandeira amarela ou vermelha significa que o ONS está despachando térmicas. Bandeira verde significa que as hidrelétricas dão conta da demanda sozinhas.
O padrão atual sugere que o sistema opera com menor margem de conforto no Sul e em patamar mediano no Sudeste, enquanto Norte e Nordeste seguem com folga. A heterogeneidade entre subsistemas é estrutural, mas a magnitude da diferença em junho de 2026 chama atenção. O spread de 39,57 pontos percentuais entre o subsistema mais cheio e o mais crítico está entre os maiores registrados para este mês em anos recentes, embora sem série histórica completa não seja possível afirmar que é recorde. O que o dado mostra é que o Brasil entra no segundo semestre com os reservatórios do Sul e do Sudeste/Centro-Oeste em situação delicada, dependendo de chuva acima da média nos próximos meses para evitar acionamento térmico prolongado.