Pular para o conteúdo
Atividade com IA

Reservatórios do Brasil mostram disparidade acentuada entre regiões

Norte e Nordeste mantêm níveis confortáveis enquanto Sul opera crítico, com spread de 37,93 pontos percentuais.

Os quatro subsistemas do Sistema Interligado Nacional apresentam cenários distintos em 25 de junho de 2026. O Sudeste/Centro-Oeste, que concentra aproximadamente 70% da capacidade instalada do país, opera em 65,60% de sua capacidade máxima de armazenamento. O Nordeste mantém 89,75%, o Norte 94,67%, e o Sul 56,74%. A diferença entre o subsistema mais cheio e o mais crítico chega a 37,93 pontos percentuais, refletindo heterogeneidade nas condições hidrológicas das bacias que alimentam cada região.

Essa disparidade tem origem nas características distintas de cada bacia hidrográfica e nos padrões de precipitação recente. O Norte e o Nordeste, alimentados por regimes de chuva mais abundantes neste período, mantêm reservatórios em patamares confortáveis. Nos últimos 30 dias até 25 de junho de 2026, o Nordeste acumulou 164,7 mm de chuva e o Norte 218,0 mm, volumes que garantem reposição consistente dos reservatórios. O Sudeste/Centro-Oeste, por sua vez, recebeu apenas 41,7 mm no mesmo período, volume insuficiente para elevar significativamente o armazenamento. O Sul, que registrou 118,2 mm de chuva, opera no patamar mais crítico entre os quatro subsistemas, evidenciando que a precipitação recente não foi suficiente para compensar o consumo e a evaporação.

A energia armazenada, medida em percentual da capacidade máxima dos reservatórios, é o principal indicador de segurança energética do sistema elétrico brasileiro. Quando esse percentual está alto, o país tem margem para operar com geração hidrelétrica, que é mais barata e não emite gases de efeito estufa. Quando está baixo, o Operador Nacional do Sistema Elétrico precisa acionar usinas termelétricas, que queimam gás natural, carvão ou óleo diesel para gerar eletricidade. Essas térmicas têm custo de operação muito mais elevado, e esse custo adicional é repassado ao consumidor por meio das bandeiras tarifárias, o mecanismo que aparece na conta de luz como bandeira verde, amarela ou vermelha.

Gráfico
Energia armazenada do Sudeste/Centro-Oeste (% do máximo), últimos 365 dias
67,2058,1449,0840,03 65,60 08/11 23/01 09/04 25/06
Fonte. ONS

O regime de chuva recente está em sintonia com os níveis de energia armazenada em cada região. Subsistemas que recebem mais precipitação conseguem manter reservatórios mais cheios, aqueles com chuva reduzida operam com margens menores. Esta relação entre entrada de água e armazenamento é fundamental para entender a operação do sistema elétrico brasileiro, que depende fortemente de geração hidrelétrica. A matriz energética nacional tem cerca de 60% de capacidade instalada em hidrelétricas, o que torna o país vulnerável a variações climáticas regionais. Quando uma região enfrenta seca prolongada, o impacto não fica restrito àquela área, o sistema interligado redistribui a carga entre subsistemas, mas essa redistribuição tem limites técnicos e econômicos.

Gráfico
Energia armazenada do Sul (% do máximo), últimos 365 dias
94,5272,7050,8829,06 56,74 08/11 23/01 09/04 25/06
Fonte. ONS

O Sul opera em situação particularmente delicada. Mesmo com precipitação de 118,2 mm nos últimos 30 dias, volume superior ao do Sudeste/Centro-Oeste, o subsistema mantém apenas 56,74% de armazenamento. Isso sugere que a demanda por energia na região está elevada, ou que a evaporação e o escoamento natural dos rios estão consumindo parte significativa da água que entra nos reservatórios. O Sul tem características hidrológicas distintas das demais regiões, com rios de menor porte e reservatórios com capacidade de regularização mais limitada. Quando chove, os reservatórios enchem rapidamente, mas também esvaziam com mais velocidade em períodos de estiagem. Essa volatilidade torna o subsistema mais dependente de complementação térmica ao longo do ano.

Gráfico
Energia armazenada do Nordeste (% do máximo), últimos 365 dias
96,5379,0361,5344,02 89,75 08/11 23/01 09/04 25/06
Fonte. ONS

Quando reservatórios operam em níveis baixos, o operador do sistema precisa acionar com maior frequência as usinas termelétricas. Este acionamento adicional de térmica eventualmente pressiona a bandeira tarifária, mecanismo que reflete no preço da eletricidade para o consumidor final. Ao longo do tempo, períodos prolongados de reservatórios críticos tendem a impactar também o IPCA energia, componente importante da inflação ao consumidor. A bandeira vermelha patamar 2, a mais cara, adiciona cerca de 7,50 reais a cada 100 quilowatts-hora consumidos. Para uma residência que consome 300 kWh por mês, isso representa um acréscimo de aproximadamente 22,50 reais na conta, valor que se acumula mês a mês enquanto a bandeira permanecer acionada.

O Sudeste/Centro-Oeste, por sua relevância na matriz energética nacional, é o subsistema mais observado pelo mercado. Seu nível atual de 65,60% situa-se acima do patamar crítico, que costuma ser considerado abaixo de 30%, mas abaixo do que se considera confortável para operação descontraída, tipicamente acima de 80%. A combinação de chuva muito baixa na região e armazenamento moderado sugere dependência maior de complementação térmica nos próximos meses, até que o regime de chuva se normalize com a chegada da estação chuvosa no segundo semestre. A expectativa do mercado é que as chuvas retornem com intensidade a partir de outubro, mas essa projeção depende de padrões climáticos que podem variar. Enquanto isso, o custo marginal de operação do sistema tende a permanecer elevado, pressionando as tarifas e a inflação de energia.

Fonte. ONS · EAR Diário por Subsistema (dados.ons.org.br) Reportar erro