Commodities agrícolas caem enquanto real ganha força, mas câmbio explica pouco
Soja, milho, café e açúcar recuaram entre março e junho com correlação fraca ao movimento cambial.
Entre 6 de março e 8 de junho de 2026, o real ganhou força frente ao dólar, apreciando 2,24% na PTAX. No mesmo período, as quatro principais commodities agrícolas brasileiras caíram, mas em ritmos muito diferentes entre si e com pouca sincronização com o movimento cambial. A análise de correlação diária entre as variações da taxa de câmbio e dos preços agrícolas revela que fatores específicos de cada mercado pesaram muito mais que a apreciação do real.
A soja em Paranaguá recuou 0,84% na janela de 6 de março a 8 de junho de 2026, movimento leve em termos históricos. Quando observada a correlação diária entre variações da PTAX e do preço da soja, o coeficiente de Pearson ficou em 0,35 sobre 59 dias úteis comuns, indicando associação fraca. Esse coeficiente mede a intensidade e a direção da relação linear entre duas variáveis: valores próximos de 1 indicam forte correlação positiva, próximos de menos 1 indicam forte correlação negativa, e próximos de zero indicam ausência de relação linear. No caso da soja, o 0,35 significa que os dois preços andaram em direções semelhantes em menos da metade dos pregões, e em muitos dias a soja se mexeu independentemente do câmbio.
Essa desconexão entre câmbio e preço da soja reflete a complexidade do mercado. A soja brasileira compete no mercado internacional com a americana e a argentina, e seu preço doméstico responde a fatores como safra esperada, demanda chinesa por farelo e óleo, e prêmios de exportação nos portos. Um real mais forte deveria, em tese, pressionar os preços domésticos para baixo, já que o exportador recebe menos reais por cada dólar de venda externa. Mas quando a demanda internacional está firme ou a oferta doméstica está apertada, esse efeito cambial fica diluído. A janela de março a junho de 2026 capturou justamente um período em que a safra brasileira já estava colhida e a demanda externa se mantinha estável, o que explica a baixa sensibilidade ao movimento do real.
O milho ESALQ caiu 8,53% na janela de 6 de março a 8 de junho de 2026, queda moderada. A correlação com o câmbio foi ainda mais fraca, em 0,10 sobre 59 dias úteis, sugerindo que fatores específicos do mercado de milho pesaram muito mais que a apreciação do real. O milho brasileiro tem dinâmica própria: é commodity de dupla safra, com a segunda colheita concentrada entre junho e agosto, e seu preço responde fortemente à demanda interna por ração animal, que representa cerca de 70% do consumo doméstico. Quando a oferta da segunda safra começa a entrar no mercado, os preços tendem a ceder independentemente do câmbio. Além disso, o Brasil compete com milho argentino e americano no mercado externo, e variações nos preços internacionais do grão afetam o preço doméstico tanto quanto o câmbio.
A correlação de 0,10 indica que, na prática, saber se o real apreciou ou desvalorizou em um dia específico diz quase nada sobre o que aconteceu com o preço do milho naquele mesmo dia. Para produtores e traders, isso significa que estratégias de hedge cambial protegem apenas uma fração pequena do risco de preço do milho. O risco maior está na oferta doméstica, na demanda por ração e na competição com importações, variáveis que o câmbio não controla.
O café arábica se destacou pela magnitude da queda. Recuou 27,07% entre 6 de março e 8 de junho de 2026, movimento acentuado que supera em muito o das demais commodities e o do câmbio. A correlação com a PTAX foi negativa, em menos 0,31 sobre 59 dias úteis, indicando que parte significativa dessa queda ocorreu justamente quando o real ganhava força. Correlação negativa significa que, em vários pregões, o café caiu enquanto o real apreciava, padrão contraintuitivo que sugere pressões próprias do mercado cafeeiro operando independentemente e até em sentido contrário ao que o câmbio favorável poderia sugerir.
O café arábica brasileiro enfrenta competição direta com a produção colombiana e vietnamita, e seu preço doméstico responde a expectativas de safra, estoques mundiais e demanda de torrefadores internacionais. A janela de março a junho de 2026 coincidiu com sinalizações de safra maior no Brasil e com demanda fraca de importadores europeus e americanos, fatores que pressionaram os preços para baixo com intensidade muito superior ao efeito cambial. A correlação negativa sugere que, em dias em que o real apreciava e deveria, em tese, sustentar os preços domésticos do café, outros fatores (como notícias de safra abundante ou cancelamento de contratos de exportação) pesaram mais e empurraram os preços na direção oposta.
O açúcar SP recuou 2,91% na janela de 6 de março a 29 de maio de 2026, queda leve. A correlação com o câmbio foi praticamente nula, em menos 0,07 sobre 57 dias úteis, indicando que variações diárias da PTAX explicam quase nada das oscilações do preço do açúcar. O açúcar brasileiro compete com a produção de etanol nas usinas, e seu preço doméstico responde a fatores como preços do petróleo, políticas de mistura de etanol na gasolina, e condições climáticas nas regiões produtoras. Quando o petróleo está caro, as usinas direcionam mais cana para etanol, reduzindo a oferta de açúcar e pressionando os preços para cima. Quando o petróleo está barato, o movimento é inverso. Essa dinâmica interna do setor sucroenergético explica por que o açúcar se move independentemente do câmbio na maior parte dos pregões.
Esta leitura usa janela de 59 dias úteis comuns entre PTAX e indicadores CEPEA para soja, milho e café, e 57 dias úteis para açúcar. A série de preços agrícolas do CEPEA/ESALQ-USP acumula desde 2005 no pipeline do Elucidados, e correlações ficam mais robustas conforme o histórico cresce e padrões sazonais se repetem. Janelas curtas como esta capturam tendências recentes, mas podem não representar comportamento de longo prazo. O padrão de correlações fracas entre câmbio e commodities agrícolas é comum em períodos de pressão doméstica forte, como safra abundante ou demanda interna aquecida, mas pode mudar quando o fator externo domina, como em crises cambiais ou choques de oferta global.
Para exportadores e produtores, a lição é que um real apreciado não compensa automaticamente quedas de preço no mercado internacional. Cada commodity responde a dinâmicas próprias, e o câmbio é apenas uma das variáveis em jogo. Estratégias de proteção de receita precisam considerar hedge cambial e hedge de preço da commodity separadamente, porque os dois riscos não andam juntos.
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