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Câmbio com IA

Prêmio de 10,9 pontos percentuais entre Selic e Fed Funds não sustenta real

A Selic fixada em 14,50% ao ano, conforme meta vigente em 25 de maio de 2026, supera em 10,86 pontos percentuais a

A Selic fixada em 14,50% ao ano, conforme meta vigente em 25 de maio de 2026, supera em 10,86 pontos percentuais a taxa básica americana de 3,64% ao ano, apurada em 1º de abril de 2026. Esse diferencial, conhecido no mercado como carry, remunera o investidor que mantém recursos aplicados em reais em vez de dólares. O patamar atual aproxima-se da máxima da série histórica de 61 meses, que registrou teto de 12,04 pontos percentuais e piso de 3,44 pontos percentuais no período.

O carry trade funciona como motor de atração de capital para países com juros mais altos. A lógica clássica sugere que diferenciais robustos atraem fluxo estrangeiro, forçando apreciação da moeda local. O investidor toma emprestado em dólar a juros baixos, converte para real, aplica em título brasileiro que rende Selic, e embolsa a diferença. Se o real se mantiver estável ou se valorizar, o ganho é duplo: juro alto mais ganho cambial. Se o real desvalorizar mais que o diferencial de juros, o carry vira prejuízo.

A correlação entre o diferencial de juros e a taxa de câmbio real ante o dólar, medida em -0,08 nos últimos 61 meses conforme cálculo do Elucidados, indica desacoplamento estrutural. Pelo modelo clássico, esperava-se correlação negativa robusta, onde diferenciais maiores fortaleceriam o real de forma consistente. O regime atual é classificado como carry fraco, sinalizando que a relação entre o prêmio de juros e o câmbio é tênue no período analisado. Isso não significa que o carry deixou de existir, mas que outros fatores dominam a formação do preço do dólar comercial.

A taxa de câmbio apurada em 5,0069 reais por dólar no dia 25 de maio de 2026 apresentou trajetórias distintas conforme a janela observada. Nos últimos 30 dias, a moeda manteve-se praticamente estável, com variação de apenas 0,02%. Em horizontes mais longos, o real registrou valorização de 3,12% nos últimos 90 dias e de 6,75% nos últimos 180 dias. A apreciação acumulada no semestre ocorreu mesmo com o diferencial de juros próximo do teto histórico, reforçando a tese de que o carry sozinho não determina a direção do câmbio.

O diferencial de juros é apenas um dos componentes que formam o preço da moeda. O risco-país, medido pelo CDS de cinco anos, reflete a percepção de sustentabilidade fiscal e capacidade de pagamento do governo brasileiro. Quando o risco sobe, o prêmio exigido pelo investidor estrangeiro aumenta, e parte do carry é consumida pela desconfiança. O fluxo comercial também exerce influência direta: superávits robustos trazem dólares para dentro, pressionando o câmbio para baixo independentemente do juro. O cenário global, por sua vez, determina o apetite por risco dos investidores. Em momentos de aversão, emergentes perdem capital mesmo com carry elevado, porque o investidor prefere segurança a retorno.

A fraqueza da correlação observada nos últimos 61 meses sugere que esses outros fatores dominaram a formação do câmbio no período. O carry trade atua como um dos motores da moeda, mas não como determinante único de sua trajetória. O dado mede co-movimento, não causalidade. A complexidade dos fatores que movem o mercado de câmbio impede que o diferencial de juros sozinho explique a variação do real ante o dólar. Para o investidor que opera carry, isso significa que o prêmio de 10,86 pontos percentuais remunera não apenas o risco cambial, mas também a incerteza sobre quanto desse prêmio será de fato embolsado ao final da operação.

Fonte. BCB_SELIC_META · FRED_FED_FUNDS_RATE · BCB_PTAX_USD Reportar erro