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Câmbio com IA

Carry trade de 10,86 pp não sustenta real apesar do prêmio elevado

A Selic está em 14,50% ao ano, enquanto a taxa básica americana (Fed Funds) permanece em 3,64% ao ano, configurando um diferencial

A Selic está em 14,50% ao ano, enquanto a taxa básica americana (Fed Funds) permanece em 3,64% ao ano, configurando um diferencial de 10,86 pontos percentuais em maio de 2026. Esse prêmio remunera o investidor que mantém recursos em reais em vez de dólares, estratégia conhecida como carry trade. O patamar atual situa-se próximo ao teto da janela de 61 meses, que registrou mínimo de 3,44 pontos percentuais e máximo de 12,04 pontos percentuais no período.

O carry trade funciona assim: o investidor toma emprestado em moeda de juros baixos (dólar, no caso), converte para moeda de juros altos (real), aplica na taxa local e embolsa a diferença. Quando o diferencial é amplo, a operação fica atraente, desde que a moeda de destino não desvalorize mais do que o prêmio de juros compensa. A teoria clássica sugere que diferenciais elevados atraem fluxo de capital estrangeiro, valorizando a moeda local. Na prática brasileira recente, essa relação não está funcionando.

A PTAX fechou em R$ 5,0514 no dia 28 de maio de 2026, acumulando alta de 1,28% nos últimos 30 dias. Nas janelas de 90 e 180 dias, o real apreciou 1,90% e 5,29%, respectivamente, mas o movimento não guarda relação linear com o diferencial de juros. A correlação estrutural entre o diferencial e a taxa de câmbio, calculada pelo Elucidados sobre 61 meses, é de apenas 0,07 negativo. Pelo carry trade clássico, esperava-se correlação negativa mais acentuada, indicando que prêmio de juros maior levaria a real mais forte (PTAX mais baixa). O número próximo de zero mostra que o diferencial exerce influência tênue sobre o câmbio.

Gráfico
USD/BRL — PTAX (fechamento), últimos 1825 dias
6,215,685,154,62 5,02 03/05 06/01 18/09 02/06
Fonte. BCB

O regime atual é classificado como carry fraco. Isso significa que o diferencial de juros não atua como motor principal da formação cambial. Outros fatores operam em paralelo e, no momento, superam a força do prêmio: risco-país percebido pelos investidores estrangeiros, fluxo comercial (exportações e importações que geram oferta e demanda de dólar), condições externas como apetite global por risco e movimento do dólar contra outras moedas emergentes. Quando esses fatores apontam para desvalorização do real, o diferencial de juros elevado não basta para reverter a tendência.

Vale notar que a taxa Fed Funds é dado mensal, o que impõe defasagem na análise do diferencial frente à volatilidade diária do mercado cambial. A Selic, por sua vez, muda apenas nas reuniões do Copom, oito vezes ao ano. O diferencial calculado aqui usa a Selic de 28 de maio de 2026 e a Fed Funds de abril de 2026, última disponível. Essa defasagem não invalida a análise de médio prazo, mas explica por que o diferencial não captura movimentos diários do câmbio.

A correlação mede co-movimento, não causalidade. Um diferencial de 10,86 pontos percentuais é elevado em termos históricos, mas não garante valorização do real se o mercado precificar risco fiscal doméstico, instabilidade política ou fuga de capitais de emergentes. O dado mostra que, embora o prêmio de juros brasileiro seja atrativo no papel, ele não atua isoladamente na formação da taxa de câmbio. O real segue influenciado por um conjunto de variáveis globais e domésticas que, no momento, superam a força do diferencial de juros. Para o investidor que opera carry trade, o recado é claro: prêmio alto não elimina risco cambial.

Fonte. BCB_SELIC_META · FRED_FED_FUNDS_RATE · BCB_PTAX_USD Reportar erro